Guðmundsdóttir

26 jul

Talvez uma das maiores batalhas entre gostar e não gostar que já travei diz respeito a esse cúmulo de subjetividade de nome estranho, conhecida por Björk. Desde pequeno que ouço-lhe o nome, mas só bem grandinho ouvi sua voz. A vocalista da minha banda favorita, Amy Lee (Evanescence), a tem como uma de suas inspirações. Bastaria isso para que eu me interessasse pela islandesa, mas contra as minhas expectativas, não foi suficiente. Serviu para que eu procurasse os albuns e os ouvisse, mas não para gostar de imediato. O que não quer dizer que eu não gostei/gostasse/gosto. Simplesmente, não dá pra aprovar ou reprovar tão facilmente. Björk é como um daqueles estudantes que se candidatam a vagas em conservatórios e que, durante a audição, de tal forma choca os jurados que eles não podem, naquele exato momento, dar um veredicto.

Ao longo desses anos eu venho ouvindo as canções. Em alguns momentos me preenchem, em outros não atravessam a barreira do momentâneo desinteresse. Só muito recentemente, pensando com meus botões, vislumbrei o que a ela me prendia e porque a incomprensão desse motivo me impedia de não gostar.

Björk Guðmundsdóttir, sim, é uma verdadeira poetisa. Não pelo sobrenome difícil de pronunciar (eu mesmo não sei), mas porque os poetas de verdade escrevem pra si próprios, satisfazem-se consigo próprios. Daí a razão pela qual ela não se preocupa (ou se se preocupa, muito pouco) com o que dizem ou com o que pensam dela ou do vestido de cisne com o qual ela compareceu a cerimônia do Oscar.

A poesia dela, não se limitando à escrita, é composta pelo todo excêntrico, pelas vestimentas, maquiagens e penteados; pela ousadia (positivamente falando) de ser somente o que deseja. Björk é isso, puro desejo, puro Eros, pulso e impulso. É por isso que me encontro preso, atado, sob encanto da feiticeira que inconscientemente atrai legiões de fãs, do mesmo modo que o flautista de Hamelin.

Eu, que, como todo ser vivo, busco o que me falta, sucumbo orgulhosa e prazerosamente, vencido pelo gostar. Eu, que peco por ser excessivamente racional (ao menos é o que dizem, mas eu tenho lá minhas dúvidas), preciso de toda poesia, subjetividade e desavergonhada (no bom sentido) emoção que emana da artista. Arte! É isso. Essa é a palavra que ela pode usar, sem medo ou timidez, para descrever o que faz, porque não é só música ou vestuário, é um metódo perfeito de sedução espiritual (se me permitem o uso da palavra). Eu, que quero aprender a sentir antes de pensar, reconheço o poder da semente que brotou nas gélidas terras do Norte da Europa e me ajoelho, voluntariamente, diante de seu talento.

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Aos interessados, links úteis e um dos vídeos mais antigos (meu preferido):

Site Oficial . Álbuns (Download)*

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* O link para download dos albuns não é de minha autoria. Foi encontrado através de ferramentas de busca e pesquisa.

The Man-Eater

21 jun

Lembro-me como se fosse ontem. Havia um fliperama aqui na rua dum senhor muito afável chamado Seu Agnaldo. Eu era muito pequeno e por isso meus pais não me deixavam freqüentar o lugar ou jogar os “arcades” violentos que atraíam meninos de todos os cantos. Mas eu e meu irmão, ainda que não pudéssemos jogar, ficávamos na janela observando os outros fazerem o que não podíamos. E um dos jogos mais requisitados e o que eu mais gostava era o na época recém lançando “Ultimate Mortal Kombat 3”. Apenas observando eu pude memorizar os personagens e associar-lhes os devidos nomes, sabia as técnicas de cada um, e já tinha na cabeça todos os “fatalities, babalities, brutalities, frienships e animalities” (não que eu soubesse, caso me fosse permitido tocar naqueles botões, operar todos esses golpes e técnicas;  o que eu sabia era dizer a quem pertencia todas e cada uma delas).

Esse pequeno parágrafo serve como introdução ao tema do post. Recentemente foi lançado a nova versão do game sobre o qual discorro, Mortal Kombat 9. Seria impossível descrever a emoção que senti ao ver a magnífica produção, os gráficos de última geração, os mesmos personagens das versões antigas em seus novos costumes, com novas feições, novas vozes, mesmas técnicas, porém otimizadas pela tecnologia da atualidade, além de serem dotados de personalidades que se assemelham com mais fidelidade aos da história original.

Como exemplo, uma das minhas personagens preferidas, o clone maléfico da Princesa Kitana, Mileena, que é uma mistura das raças “edenian” e “tarkatan”. Da Alteza, Mileena herdou todos os atributos estéticos, formando um todo belo, cuja uniformidade só era violada por um pequeno detalhe. Do nariz ao queixo, havia prevalecido o gene “tarkatan”, que lhe dava presas afiadas, uma mandíbula poderosa e um nariz animalesco, conjunto que ela escondia com uma máscara que era obrigada a usar desde pequena. Tal fato causava-lhe um ódio mortal pela “irmã”, que não precisava se submeter à mesma condição, por ter um rosto imaculadamente perfeito. Como se isso não bastasse, Mileena tentava de todas as formas adquirir maior afeto de Shao Kahn, o pai adotivo de ambas, que, mesmo não desgostando dela, despendia mais favores à outra.

Além da deformidade, o clone da Princesa tinha que lidar com um feroz instinto carnívoro. Não a toa foi lhe dado o epíteto “the man-eater” (a devoradora de homens). Em todos os filmes e games, apesar de aparentar menos racionalidade que a irmã, ela era representada como uma humana (na verdade, como uma “edenian”, raça fisiologicamente idêntica à humana, com maior força e longevidade, porém), com todos os instintos controlados. Nesta versão, ao contrário, Mileena não controla os próprios instintos. É ao mesmo tempo a bela e a fera, submetendo-se unicamente aos ditames de Shao Kahn, pelos motivos acima expostos.

Enfim, assistam aos vídeos do game e, se tiverem a oportunidade, joguem-no. Como diz a própria Mileena, “Let us dance!

 Site Oficial (MK 9) . Mileena’s Page

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Bom Proveito!

I like Lykke Li

30 abr

Dois acontecimentos fizeram essa semana valer à pena, um deles eu não posso contar, o outro, eu faço questão de dizer. Descobri uma artista incrível! (Incrível! – com exclamação). Eu a descobri assistindo Glee, onde a personagem Tina apresenta sua versão de “I Follow Rivers”. Ao ouvir essa música eu imediatamente me senti impelido a pesquisar sobre a cantora, e descobri que ela é sueca e se chama Li Lykke Timotej Zachrisson (ou simplesmente Lykke Li). No seriado acima citado, a personagem que interpreta a canção da sueca diz que ela era uma mistura de Björk e Florence and the Machine. Eu concordo, apesar de me sentir tentado a dizer que Timotej, ao assimilar o melhor das duas cantoras (involuntária e inconscientemente, eu suponho), torna-se melhor que as duas. Mas não vou afirmar isso, menos por medo dos impropérios que ouviria dos fãs daquelas, que por também gostar muito delas. Cada uma (incluindo Lykke) é boa dum modo diferente, com seus talentos, suas peculiaridades e suas excentricidades.

A garota de 25 anos (nascida em 86) opera uma mistura de pop, rock, indie e electro, segundo a Wikipédia, mas acredito que estes estilos não descrevem a totalidade de experiências sensoriais que experimenta aquele que dedica 43 minutos de seu tempo para ouvir Wounded Rhymes, o último álbum de Li, datado deste ano. Da primeira à última faixa, eu aprecio, de fato, todos os estilos descritos na grande enciclopédia, mas também muitos outros, cuja impressão certamente variaria de pessoa pra pessoa. Como exemplo, eu posso dizer que ao ouvir a faixa 3, Love Out of Lust, eu senti uma tênue semelhança com a banda islandesa Sigur Rós, que, apesar de pertencer ao gênero pop e rock, tem-lhe associada espécies destes dois gêneros que não se aplicam a cantora. Noutras faixas, eu experimento uma sonoridade épica, com coros agitados e backing vocals dinâmicos.

Enfim, Lykke consegue misturar diversos estilos magistralmente, e, na minha humilde opinião, são poucos os artistas capazes de tal feito. Eu tenho a impressão de que o fato dela ter vivido na Suécia, Portugal, Marrocos, Nepal, Índia e Nova Iorque a possibilitou vivenciar diversas culturas e estilos musicais, o que lhe permitiu transpor a experiência para a dimensão musical e criar esse som único, que não parece pertencente a lugar nenhum, mas a todo o mundo.

Deixando de falar das minhas experiências, deixo abaixo links para quem quiser conhecer esse cúmulo de talento e o vídeo da minha música favorita (que, por sinal, tem fortes pitadas de simbolismo), para que tenham as próprias impressões, e tirem as próprias conclusões.

Site Oficial . Biografia (Português) . Biografia (Inglês) . Facebook (Página) . MySpace . Orkut (Comunidade)

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“You’re my river running high, run deep, run wild…

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Bom Proveito!

A Liberdade da Kaze Tsukai

9 mar

Eu mal comecei a assistir os episódios finais de InuYasha (distintos do anime tradicional e apresentados sob o nome “InuYasha Kanketsu-hen”) e minhas glândulas lacrimais estão quase fazendo greve sob alegação de exploração. Como já era de se esperar, na reta final do anime, vários personagens encontram seu fim e, via de regra, os momentos finais são cercados por drama e lágrimas.

Se você ainda não assistiu estes episódios eu aconselho a não continuar a leitura, pois eu tratarei de fatos cruciais para o desenrolar da trama, e saber de antemão o que irá acontecer acabará por tirar a encantadora capa que nos prende e nos emociona a cada episódio deste anime.

Quem acompanhou o anime desde o começo conhece Kagura, a Kaze Tsukai (Feiticeira dos Ventos). Trata-se de uma das crias do odioso vilão Naraku, uma personagem antagônica que odeia seu progenitor e que anseia, mais do que qualquer coisa, a liberdade.

Tal anseio constitui-se numa contradição, pois Kagura é a encarnação do próprio vento, e o vento sopra, corre, é livre. Ainda assim, não se pode dizer o mesmo da feiticeira, que vive sob o controle do já referido vilão. Não pode nem mesmo se dar ao luxo de tentar fugir, pois seu coração encontra-se sob a posse de seu criador e, caso ele destrua-o, extingue-se sua existência.

O ódio por Naraku e o desejo pela liberdade a levam a traí-lo. Em várias ocasiões, ela agiu por conta própria e conspirou para que seu “dono” fosse derrotado e sua liberdade alcançada, sendo severamente punida. Chegou até mesmo a pedir ajuda a Sesshoumaru, um dos personagens mais fortes e cuja força é proporcional à falta de modéstia. Sendo rejeitada por ele, passou a cultivar uma relação de amor e ódio cuja correspondência só obteve no momento do adeus.

Consideravelmente forte e dispondo de técnicas e habilidades peculiares e destrutivas – como a “Ryuuja no Mai (Dança do Dragão), – criação de vários tornados – Fuujin no Mai (Dança das Lâminas de Vento) e Shikabane Mai (Dança dos Cadáveres) – com o qual é capaz de controlar os mortos – a Kaze Tsukai causou sérios problemas e dores de cabeça aos heróis principais, tornando-se tão odiosa quanto o próprio Naraku. Mas a divergência de interesses em relação a este acabou por fazê-la tomar atitudes favoráveis aos “mocinhos” e tornar-se bem vista aos olhos deles ao ponto de oferecem ajuda e proteção contra o arquiinimigo – ofertas recusadas por ela e que acabaram por resultar em sua morte.

Aqui começa o drama de fato. Novamente reitero o aviso de que você, leitor, não deve seguir adiante se ainda não assistiu o anime e tem tal interesse, sob conseqüência de não poder desfrutar o prazer dos fatos inéditos e a emoção da morte inesperada.

Como já foi dito, em seus momentos finais, Kagura acaba por ajudar semi-intencionalmente InuYasha e cia. Sua traição já era do conhecimento de Naraku e já reinava o clima de apreensão e da retaliação iminente. Finalmente ocorre o derradeiro encontro entre o criador e a criatura. Naraku diz que lhe dará seu coração e a liberdade que tanto almeja. Kagura mantém-se apreensiva e desconfia das intenções do progenitor, mas este, como dissera, devolve o coração da feticeira e, consequentemente, restitui-lhe a liberdade.

Mal teve tempo, porém, de usufruir do seu ansiado “kokoro”¹. Imediatamente após a restituição, Naraku a fere gravemente, perfurando-a com suas presas e espalhando pelo seu corpo um miasma mortal. A feiticeira foge da presença de seu algoz e este, em sua cabeça, reproduzia os seguintes pensamentos:

“Agora vá para onde quiser.
Aproveite bastante o curto tempo de vida que lhe resta.
Apesar de que, tudo que sentirá será dor e desespero.
Kagura, essa era a liberdade que você almejava”.

Poucos minutos depois, distante dali, num pacífico e remoto campo florido, a Kaze Tsukai lutava para não perder a consciência e sucumbir, nutrindo, ainda, a esperança de sobreviver:

“Eu posso me recuperar dessas feridas em uma dia…”

Ofegante e com um leve sorriso no rosto abatido, expressa seu contentamento:

“Meu coração está batendo…
Eu posso ir para qualquer lugar.
Eu sou livre”.
*

Mas momentos depois, ela finalmente se dá conta de que não sobreviverá:

“Droga!
Meu corpo não me obedece…
Minhas feridas vão se abrir novamente.
Eu não tenho poder sobrando para me curar”.

Longe dali, Sesshoumaru, o mesmo que diversas vezes havia negado ajuda à feiticeira, sente o cheiro de seu sangue, enquanto lutava contra Moryomaru. Seu adversário também se dá conta da iminente morte de Kagura, e profere as seguintes palavras:

“Aquela mulher estúpida está morrendo?
Depois de trair o Naraku e me trair por uma coisa tão trivial chamada liberdade…
Ela morreu daquele jeito patético.
Uma morte totalmente em vão”.
*

Sesshoumaru inflama-se, denotando, pela primeira vez, sentimentos em relação a mulher e, diante do comentário de seu adversário, ataca-o com toda força, não matando-o, mas o fazendo recuar. O “dai-youkai” vai, então, ao encontro da Kaze Tsukai. Antes de sua chegada, Kagura experimentava, pela primeira vez, um sentimento de auto-piedade e tristeza maiores do que os que decorriam de seu anseio pela liberdade:

“Está tão quieto…
Não tem ninguém.
Eu vou acabar aqui?
Sozinha…
Essa é a liberdade que eu almejei…”


Lá chegando, Sesshoumaru é recebido com uma expressão de surpresa pela moribunda. O diálogo é reproduzido logo abaixo:

[Kagura]

Sesshoumaru…

[Sesshoumaru]

Eu segui o cheiro do sangue e do miasma…

[Kagura]

Entendo, você pensou que era o Naraku.
Está desapontado de não ter sido o Naraku?

[Sesshoumaru]

Eu sabia que era você.

[Kagura]

Mesmo sabendo…
você veio?

[Sesshoumaru]

A Tenseiga² não pode salvá-la. (Pensamento)
Você está indo?

[Kagura]

Sim…
Já está bom.
No fim…
Eu pude te ver.

Kagura, com um sereno sorriso no rosto, é consumida pelo miasma e se esvai em pétalas e plumas, em frente a Sesshoumaru, que não demonstrava, ao menos facialmente, qualquer alteração sentimental. Neste momento, InuYasha, Kagome e os outros chegam ao local, também atraídos pelo cheiro de Kagura, com a intenção de salvá-la. Tarde demais. InuYasha, ainda, interroga, Sesshoumaru:

[InuYasha]

Espere, Sesshoumaru!

[Kagome]

InuYasha…

[InuYasha]

A Kagura!
Ela estava sofrendo?

[Sesshoumaru]

Ela estava sorrindo.

Alguns episódios adiante, sua irmã, Kanna, encontra seu leque no mesmo campo florido em que morreu e, com sua voz fria, triste e submissa, profere, antes de entregar o objeto ao lago, as seguintes palavras:

“Kagura, você se tornou o vento?
Você conseguiu sua liberdade?
Eu…
Eu não…
Eu não tenho nada…”

***

As últimas palavras de Kagura, a Kaze Tsukai:

“Eu sou o vento. Eu sou o livre vento”.


¹ Kokoro: Coração
² Tenseiga: Katana dada a Sesshoumaru por seu falecido pai,
Inu no Taishou, que tem a capacidade de ressuscitar os mortos.

***


Música, Anime e Mitologia

17 jan

Animação ao estilo japonês e mitologia, duas coisas das quais eu gosto muitíssimo. Só algo de bom poderia resultar da combinação entre esses dois elementos. Se você assistia desenhos animados na década de 90 (independente da sua idade), provavelmente deve saber do que eu estou falando. Caso não saiba ou não se lembre, eu vou refrescar a sua memória:

♪♫♪♫

Pégasus, ajuda o teu cavaleiro.
Gelo, dragão e os guerreiros.
Cavaleiros do zodíaco.

Fênix, guia pro bem seu guerreiro.
Andrômeda e o seu cavaleiro.
Cavaleiros do zodíaco.

♪♫♪♫

Lembrou? Ótimo! Então continuemos.

Apesar de não me considerar um otaku, gosto muito de animes. E Cavaleiros do Zodíaco é, sem dúvida, um dos meus favoritos. Eu acompanho a história desde que o desenho era exibido através da péssima recepção de imagem da extinta TV Manchete. Mas não é sobre esta versão do desenho que me proponho a falar.

Se a união entre animação japonesa e mitologia resulta nas fabulosas produções de Masami Kurumada, o que obteríamos se a isso se acrescesse belíssimas composições clássicas? Os fãs mais assíduos do anime já devem ter desvendado o mistério. Refiro-me a uma das versões mais recentes da história dos Cavaleiros de Atena, intitulada “Saint Seiya: The Lost Canvas – Hades Mithology”. Não é só no nome que a história se diferencia. Os episódios narram a penúltima guerra santa entre Hades e Atena, ocorrida no século XVIII, e com personagens diferentes (obviamente) – apesar de serem caracteristicamente muito parecidos com os originais, em vista da pretensão de Kurumada em reforçar o princípio da reencarnação. Por conta de novos recursos tecnológicos, os traços são mais detalhados e realistas – que fique claro, porém, que não é ao idealizador original do anime que devemos a autoria desta versão. Os créditos pertencem a Shiori Teshirogi (isso mesmo, uma mulher).

Quero me concentrar, entretanto, apenas no que diz respeito à trilha sonora do anime, assinada por Kaoru Wada. O fator musical foi, sem dúvida, um dos elementos que mais me atraiu a essa nova versão. A cada personagem e espaço-tempo associa-se uma diferente composição, que, a meu ver, parece combinar perfeitamente com seu objeto. Pouquíssimas são as canções cantadas, mais especificamente, apenas três (a música de abertura – The Realm of Athena, a música de encerramento – Hana no Kusari, e a faixa de número 29 – Death Messenger). O restante conta unicamente com sons característicos de uma orquestra ou de um coral, dignos de qualquer grande compositor ou trilha de produção cinematográfica.

Talvez o fato de a maioria das faixas contar com a utilização do meu instrumento musical favorito, o violino (nada mais comum, em vista do fato de se tratarem de composições clássicas), tenha despertado em mim maior interesse. Mas o fator principal ao qual se deve a qualidade desta produção é o modo como foram combinados bem sucedidamente elementos que em certa dimensão se assemelham e em outra se distinguem. Isso já é característica constatada em Cavaleiros do Zodíaco. Mas em nível musical, de que forma isso se materializa?

Bem, além de animação ao estilo japonês, mitologia e composições clássicas, contra todas as expectativas, há algo mais que torna o anime tão magnífico – a presença de elementos góticos. Os elementos religiosos e sombrios se fazem presentes do começo ao fim, tanto arquitetonicamente falando (os domínios terrestres de Hades, por exemplo), quanto estilisticamente, – Pandora (foto) que o diga – ou, ainda, o que mais nos interessa, musicalmente. Óbvio que isso se deve ao enredo da trama, que se trata duma batalha contra o Imperador do Submundo. Assim como Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, mesclou os elementos clássicos pagãos aos cristãos, em The Lost Canvas, o mesmo ocorre. Por isso as mitologias grega e cristã se entrelaçam a todo tempo.

Como todo mundo sabe (ou ao menos deveria saber), o estilo gótico é predominantemente cristão. Depois de algum tempo foi-lhe acrescida essa conotação satânica, tão explorada pelas atuais bandas de heavy metal e hardcore, sem que, de qualquer forma, perdesse sua essência melancólica, pessimista e sobrenatural. Mas o elemento musical gótico que marca presença na produção japonesa nada tem a ver com esses arranjos pesados de rock ou com adoração demoníaca. Refiro-me pura e simplesmente às composições clássicas de raízes medievais que atingiram sua maturidade na Idade Moderna, como o canto a capela (cantochão) e o canto gregoriano, obras transbordantes de religiosidade.

Enfim, Saint Seiya: The Lost Canvas é uma fonte ilimitada de referências histórico-artísticas e mitológicas. É um manifesto ao bom gosto. Emocionante, dramático, trágico, vivaz, romântico, agitado, tétrico e tudo mais que lhe puder ser proporcionado por essa magnífica produção. Aos que quiserem assistir, aconselho prestar especial atenção às músicas. Contemplar traços bem delineados, movimentos realistas e uma trama envolvente torna-se muito mais agradável com uma bela e harmônica consecução de notas ao fundo.

Aos interessados, alguns links úteis, dentre os quais encontram-se disponibilizados a trilha sonora e os episódios para download, além dum breve vídeo de apresentação.

Ficha Técnica . Episódios (Download)* . Trilha Sonora (Download)**

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Bom Proveito!

*Os episódios não foram disponibilizados por mim, muito menos faço eu parte da organização do website que disponibiliza o anime para download. Dei-me ao trabalho pura e simplesmente de divulgar aqui o local que me foi indicado pela maioria das pesquisas.

**Assim como os episódios acima descritos, não é de minha responsabilidade o link disponibilizado para download da trilha sonora original do anime. O link foi disponibilizado pelo website brasileiro “Portal Saint Seiya“, na categoria “Trilhas Sonoras“, páginas também indicadas por buscas virtuais.

Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire)

28 dez

São exatamente 01h57min, do dia 28 de dezembro de 2010, eu estou morrendo de sono e me perguntando o que está me impelindo a molhar de minuto em minuto o rosto com água fria para escrever numa hora dessas. Eu acabei de assistir ao filme cujo nome usei para intitular este texto e, ao final, me ocorreram idéias literárias que, por medo de escaparem após uma noite de sono, materializarei hoje. Esta produção poderia perfeitamente estar na lista do post anterior, sobre filmes que me fizeram chorar ou sentir vontade, mas felizmente o assisti depois de ter escrito o texto em questão, o que me possibilita dedicar um espaço exclusivo para este longa no blog.

Meu dia começou nublado e prosseguiu numa tempestade silenciosa de tédio e falta de expectativas. Tentei escrever sobre outros temas, cheguei a iniciar um texto, mas não o terminei, planejei arrumar o meu quarto, mas a preguiça me venceu, tentei assistir um filme, que, até onde pude ver, me pareceu muito bom, mas pelo incômodo que me é ficar sentado tanto tempo, interrompi, e já planejava entregar-me ao sono quando me lembrei que esse filme seria exibido. Ingeri uma dose extra de café e o assisti do início ao fim, o que permitiu que meu dia tempestuoso terminasse numa explosão de cores. Os motivos? Bem, vejamos:

O filme é completamente rodado na Índia (ainda que a produção seja britânica), mas me rememora um formato literário tipicamente europeu, os contos de fada. Não há princesas, nem duendes, nem bruxas ou unicórnios. É um conto mais realista e existencialista, onde os personagens, mesmo crendo no destino, tecem suas próprias linhas, olham por si próprios e por seus amados com uma abnegação que deixaria qualquer cristão envergonhado. Vemos os três personagens centrais desde muito pequenos até o início da vida adulta. Jamal, seu irmão Salim e sua amiga Latika ficaram órfãos precocemente, aprenderam a se virar sozinhos nas ruas de Mumbai, foram explorados, arriscaram suas vidas, se separam, se reencontraram, se separaram de novo, reuniram-se novamente, e em cada novo encontro, procedido dum desencontro, os víamos maiores e com problemas de gente grande.

Por ocasião de uma separação, Jamal se inscreveu num famoso programa de TV, de modo que sua agora amada Latika o pudesse ver e saber onde se encontrava. Vemos o desenrolar final da trama, o ápice da tragédia e da comédia, e o modo como todas as experiências dos personagens contribuíram para que estivem naqueles determinados lugares, daquele determinado modo, como se, de verdade, tudo estivesse escrito. As circunstâncias poderiam ser outras, mas assim não haveria emoção. A cada cena, o espectador chora, ri, se emociona, sente raiva, apreensão, repugnância e todo um “ménage” de sentimentos e emoções humanas.

O fim, que não contarei, me causou essa automática associação da história com os contos de fada. Como terminam todos eles? “E viveram felizes para sempre”. Bem, se o filme realmente terminasse assim, seria errôneo o emprego do adjetivo “realista” para descrevê-lo. Mas o que há em comum entre este e aqueles é que dá para extrair da história indiana a mesma lição universal que é passada para as crianças pelas releituras e adaptações dos contos dos irmãos Wilhelm e Jacob Grimm. Você pode comer o pão que o diabo amassou durante quase toda a sua vida ou em partes isoladas dela, mas, cedo ou tarde, vai haver rios de chocolate e campos floridos pra você também – por alguns momentos, ao menos.

De qualquer forma, creio que todos gostem de ver vencedores por mérito, histórias – reais ou fictícias, de indivíduos que tiveram por merecer, que sofreram, perderam, apanharam, choraram, lutaram com unhas, dentes, ossos, fios de cabelo e todas as organelas das células do corpo, para finalmente ganharem seu lugar ao sol. Garanto que o clímax do filme faz toda a apreensão valer à pena, e é daqueles que nos faz sentir vingados por todos os nossos infortúnios, mesmo que se trate apenas de histórias de personagens inexistentes – ainda que pudesse ser perfeitamente o caso de qualquer trio de crianças órfãs da Índia.

Além de todos os elementos acima descritos, a trilha sonora do filme não deixa a desejar. Não é por acaso que a produção faturou inúmeras premiações, incluindo uma série de Oscars e Globos de Ouro. Ah, e não esqueçamos, não pode haver história na Índia sem ao menos uma dança, cena que você confere logo abaixo:

Bom Proveito!

Filmes, Lenços e Esquizofrenia

22 dez

Poucos são os filmes que me fazem chorar ou sentir vontade. Eu acho que até poderia contá-los nos dedos. Não me refiro apenas aos tristes. Tanto um drama, quanto um épico, uma aventura ou um romance podem por minhas glândulas lacrimais para trabalhar. Geralmente acontece quando um personagem se sacrifica para salvar outro, quando há uma catástrofe apocalíptica na qual muitos morrem, quando algum deles demonstra poder e vivacidade além da conta, ou quando há cenas excessivamente cruéis e dolorosas. Os diretores têm ainda a perspicácia de colocar uma trilha, digamos, dramática, ao fundo, o que resulta num simultâneo estímulo de vários sentidos, e a reação não poderia ser outra – lenços de papel para que te quero!

Lembro que o primeiro filme que causou esse efeito em mim foi “Titanic”. Eu devia ter uns sete anos. Ver uma mãe pondo seus filhos para dormir, enquanto o navio afundava, para que não sofressem quando a água enchesse seus pulmões, um casal de idosos abraçados na cama, esperando serenamente a morte, pessoas e pessoas correndo e gritando de desespero e o sacrifício de Jack para salvar Rose de congelar ou morrer afogada foram suficientes para me extrair algumas lágrimas. Porém, essas algumas lágrimas tornaram-se um verdadeiro riacho lacrimal quando Rose se viu obrigada a desprender o corpo congelado de Jack da tábua na qual estavam e deixá-lo afundar no mar gelado do Atlântico Norte.

Poucos anos depois, em 2001, assisti ao filme “Joana D’Arc de Luc Besson”, com Milla Jovovich. A minha cabeça infantil não conseguiu entender a totalidade contextual do filme. Via uma moça religiosa (aparentemente esquizofrênica) pedir um exército ao rei, partir para guerra, vencer muitas batalhas, ser capturada, julgada e queimada viva em praça pública. Para mim, que jamais havia ouvido falar em Guerra dos Cem Anos, heresia, Tribunal da Inquisição etc., queimar viva uma menina que nem sequer tinha chegado à casa dos 20 e por pura vingança era um ato de extrema crueldade. Eu via com o coração partido a moça agonizar enquanto as chamas ardiam sobre seu corpo, desfigurando-o completamente. O pior de tudo eram os gritos de agonia, que acompanharam meus pesadelos por semanas a fio. Não sei qual dos destinos foi o pior, o de Jack, que morreu congelado, ou o de Joana, que foi reduzida a cinzas (viva). Nessa ocasião, as lágrimas também molharam meu rosto.

Muito tempo se passou até que outra produção me emocionasse a ponto de, dessa vez, apenas marejar meus olhos. Não por tristeza, mas por orgulho. Não sei bem orgulho de que, mas não imagino que outra palavra poderia ser usada para descrever o sentimento que me acometeu ao assistir “Elizabeth – A Era de Ouro”, com Kate Blanchett (uma das minhas atrizes favoritas). Ver a primeira das rainhas da dinastia Tudor a receber o nome Elizabeth governar sozinha uma nação, ser amada e respeitada antes de temida, e o contraste entre sua vida de luxo e a vida política e amorosa foram um deleite para os meus sentidos e curiosidade histórica. Mas o ápice, a cena maior e mais vivaz que fez minha espinha se agitar sentado na poltrona, foi quando a rainha inglesa questionava o embaixador espanhol acerca dos navios castelhanos que circundavam a margem de determinada parte do litoral britânico. Por conta da impaciência da rainha (que soltava frases num espanhol impecável) em vista das negações do embaixador que dizia não saber a respeito dos navios e das pretensões de Filipe II, rei da Espanha, em impor o catolicismo ao único reino que persistia em se manter protestante, terminou este por ofendê-la, o que acabou por fazer o sangue da soberana subir à cabeça e, aos berros, expulsar os espanhóis de seu país.

* * *


Toda essa breve introdução, voltas e voltas, serviram para dar passagem ao tema principal deste texto, o longa estrelado por Jake Gyllenhaal em 2001, Donnie Darko. Eu já tinha escutado sobre esse filme uma ou duas vezes. Comentários positivos, até. Mas à primeira escuta, o nome me soava como um daqueles filmes de rebeldes sem causa da década de 60, estilo que nunca me atraiu muito, apesar de não desgostar completamente. Porém, nesse início de férias, sem ter muito o que fazer, decidi me dedicar a baixar e assistir filmes, e um dos primeiros da lista era justamente este. Queria matar a minha curiosidade, saber o que atraía tanto tantas pessoas, e uma delas em específico, visto que é tão exigente artisticamente (oi, Bruno! ^^).

Logo nas primeiras cenas, eu soube que ia adorar aquele filme. Chamem-me do que quiser, mas gosto de filmes cujos personagens centrais são adolescentes. Não apenas os de comédia, estrelados por Lindsay Lohan ou Hilary Duff, nem aqueles cujos conflitos adolescentes são o ponto fulcral. No caso de Donnie Darko, apesar do personagem principal (ele próprio) ser um adolescente, o filme não gira em torno de decepções amorosas, hormônios a flor da pele, rebeldia etc. Todos esses elementos encontram-se presentes na produção, mas não é em torno deles que gira o enredo.

Donald Darko é um adolescente que não se adapta muito aos padrões da sua conservadora cidade Middlesex. Aliás, toda sua família parece ser mais moderna em relação aos arcaicos moradores daquela cidade. Arcaicos e hipócritas, em contraste com a sinceridade excessiva da família Darko. Além disso, Donnie sofre de esquizofrenia (assim como a personagem histórica francesa), e passa a receber ordens dum coelho gigante que afirma que o mundo acabará em pouco menos de um mês. Ao longo da saga, o protagonista passa a namorar uma garota chamada Gretchen (sem comparações, por favor), a investigar acerca de viagens no tempo, a questionar (com o intuito de desmascarar) um apresentador local dono de um programa de auto-ajuda fajuto e descobre que uma velha com problemas mentais era uma ex-professora da escola em que ele estuda e que escreveu o livro que o ajudaria a entender mais a matéria sobre a qual investigava (ou talvez o efeito fosse reverso).

A atmosfera da trama é densa. Um suspense de qualidade, daqueles que lhe prendem na frente da TV (ou do PC) até o último momento. Richard Kelly, o diretor, foi bem sucedido se o objetivo dele era intrigar a platéia. É difícil saber, no filme, o que é ilusão e o que é real (acredito que os esquizofrênicos não se preocupem muito em distinguir). O personagem conseguia, a um só tempo, parecer perfeitamente normal e preocupantemente perturbado. As sessões hipnóticas com a terapeuta eram especialmente interessantes. No sono controlado, descobriam-se os principais medos do menino que parecia tão indiferente a tudo e a todos. Além do mais, vemos o mais novo dos irmãos Gyllenhaal completamente diferente daquele que observamos na atualidade – cabelos escuros, coluna curvada, músculos de menos e talento de sobra (essa última característica, entretanto, ele conservou). Sem contar que é muito difícil não gostar dum filme no qual contracenam Jake e Drew Barrymore (como uma estilisticamente clássica, porém interiormente moderna professora de literatura).

Não contarei mais nada sobre o filme para não estragar a surpresa e o final surpreendente. Final este que, por sinal, também me rendeu algumas lágrimas – caso contrário, toda aquela introdução não teria servido de nada. É quase impossível não se deixar entristecer por uma cena que, por si só, já é bastante lamentável, e que, ainda por cima, recebe como trilha sonora a versão de Gary Jules da canção “Mad World”, de 1982, da banda Tears for Fears. Eu gostaria de pôr aqui justamente o vídeo da parte mais emocionante do filme, mas como se trata do final, caso eu o fizesse, o texto teria o efeito contrário ao que planejei. Ao invés de incitar a curiosidade, eu a satisfaria. Portanto, me limitarei a colocar apenas o trailer do filme e o videoclipe da canção mais tocante da trilha. Caso queiram assistir o filme, não é difícil encontrá-lo disponível para download em blogs especializados. Sem mais delongas, eis os vídeos:


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Bom Proveito!