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Guðmundsdóttir

26 jul

Talvez uma das maiores batalhas entre gostar e não gostar que já travei diz respeito a esse cúmulo de subjetividade de nome estranho, conhecida por Björk. Desde pequeno que ouço-lhe o nome, mas só bem grandinho ouvi sua voz. A vocalista da minha banda favorita, Amy Lee (Evanescence), a tem como uma de suas inspirações. Bastaria isso para que eu me interessasse pela islandesa, mas contra as minhas expectativas, não foi suficiente. Serviu para que eu procurasse os albuns e os ouvisse, mas não para gostar de imediato. O que não quer dizer que eu não gostei/gostasse/gosto. Simplesmente, não dá pra aprovar ou reprovar tão facilmente. Björk é como um daqueles estudantes que se candidatam a vagas em conservatórios e que, durante a audição, de tal forma choca os jurados que eles não podem, naquele exato momento, dar um veredicto.

Ao longo desses anos eu venho ouvindo as canções. Em alguns momentos me preenchem, em outros não atravessam a barreira do momentâneo desinteresse. Só muito recentemente, pensando com meus botões, vislumbrei o que a ela me prendia e porque a incomprensão desse motivo me impedia de não gostar.

Björk Guðmundsdóttir, sim, é uma verdadeira poetisa. Não pelo sobrenome difícil de pronunciar (eu mesmo não sei), mas porque os poetas de verdade escrevem pra si próprios, satisfazem-se consigo próprios. Daí a razão pela qual ela não se preocupa (ou se se preocupa, muito pouco) com o que dizem ou com o que pensam dela ou do vestido de cisne com o qual ela compareceu a cerimônia do Oscar.

A poesia dela, não se limitando à escrita, é composta pelo todo excêntrico, pelas vestimentas, maquiagens e penteados; pela ousadia (positivamente falando) de ser somente o que deseja. Björk é isso, puro desejo, puro Eros, pulso e impulso. É por isso que me encontro preso, atado, sob encanto da feiticeira que inconscientemente atrai legiões de fãs, do mesmo modo que o flautista de Hamelin.

Eu, que, como todo ser vivo, busco o que me falta, sucumbo orgulhosa e prazerosamente, vencido pelo gostar. Eu, que peco por ser excessivamente racional (ao menos é o que dizem, mas eu tenho lá minhas dúvidas), preciso de toda poesia, subjetividade e desavergonhada (no bom sentido) emoção que emana da artista. Arte! É isso. Essa é a palavra que ela pode usar, sem medo ou timidez, para descrever o que faz, porque não é só música ou vestuário, é um metódo perfeito de sedução espiritual (se me permitem o uso da palavra). Eu, que quero aprender a sentir antes de pensar, reconheço o poder da semente que brotou nas gélidas terras do Norte da Europa e me ajoelho, voluntariamente, diante de seu talento.

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Aos interessados, links úteis e um dos vídeos mais antigos (meu preferido):

Site Oficial . Álbuns (Download)*

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* O link para download dos albuns não é de minha autoria. Foi encontrado através de ferramentas de busca e pesquisa.

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I like Lykke Li

30 abr

Dois acontecimentos fizeram essa semana valer à pena, um deles eu não posso contar, o outro, eu faço questão de dizer. Descobri uma artista incrível! (Incrível! – com exclamação). Eu a descobri assistindo Glee, onde a personagem Tina apresenta sua versão de “I Follow Rivers”. Ao ouvir essa música eu imediatamente me senti impelido a pesquisar sobre a cantora, e descobri que ela é sueca e se chama Li Lykke Timotej Zachrisson (ou simplesmente Lykke Li). No seriado acima citado, a personagem que interpreta a canção da sueca diz que ela era uma mistura de Björk e Florence and the Machine. Eu concordo, apesar de me sentir tentado a dizer que Timotej, ao assimilar o melhor das duas cantoras (involuntária e inconscientemente, eu suponho), torna-se melhor que as duas. Mas não vou afirmar isso, menos por medo dos impropérios que ouviria dos fãs daquelas, que por também gostar muito delas. Cada uma (incluindo Lykke) é boa dum modo diferente, com seus talentos, suas peculiaridades e suas excentricidades.

A garota de 25 anos (nascida em 86) opera uma mistura de pop, rock, indie e electro, segundo a Wikipédia, mas acredito que estes estilos não descrevem a totalidade de experiências sensoriais que experimenta aquele que dedica 43 minutos de seu tempo para ouvir Wounded Rhymes, o último álbum de Li, datado deste ano. Da primeira à última faixa, eu aprecio, de fato, todos os estilos descritos na grande enciclopédia, mas também muitos outros, cuja impressão certamente variaria de pessoa pra pessoa. Como exemplo, eu posso dizer que ao ouvir a faixa 3, Love Out of Lust, eu senti uma tênue semelhança com a banda islandesa Sigur Rós, que, apesar de pertencer ao gênero pop e rock, tem-lhe associada espécies destes dois gêneros que não se aplicam a cantora. Noutras faixas, eu experimento uma sonoridade épica, com coros agitados e backing vocals dinâmicos.

Enfim, Lykke consegue misturar diversos estilos magistralmente, e, na minha humilde opinião, são poucos os artistas capazes de tal feito. Eu tenho a impressão de que o fato dela ter vivido na Suécia, Portugal, Marrocos, Nepal, Índia e Nova Iorque a possibilitou vivenciar diversas culturas e estilos musicais, o que lhe permitiu transpor a experiência para a dimensão musical e criar esse som único, que não parece pertencente a lugar nenhum, mas a todo o mundo.

Deixando de falar das minhas experiências, deixo abaixo links para quem quiser conhecer esse cúmulo de talento e o vídeo da minha música favorita (que, por sinal, tem fortes pitadas de simbolismo), para que tenham as próprias impressões, e tirem as próprias conclusões.

Site Oficial . Biografia (Português) . Biografia (Inglês) . Facebook (Página) . MySpace . Orkut (Comunidade)

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“You’re my river running high, run deep, run wild…

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Bom Proveito!

Música, Anime e Mitologia

17 jan

Animação ao estilo japonês e mitologia, duas coisas das quais eu gosto muitíssimo. Só algo de bom poderia resultar da combinação entre esses dois elementos. Se você assistia desenhos animados na década de 90 (independente da sua idade), provavelmente deve saber do que eu estou falando. Caso não saiba ou não se lembre, eu vou refrescar a sua memória:

♪♫♪♫

Pégasus, ajuda o teu cavaleiro.
Gelo, dragão e os guerreiros.
Cavaleiros do zodíaco.

Fênix, guia pro bem seu guerreiro.
Andrômeda e o seu cavaleiro.
Cavaleiros do zodíaco.

♪♫♪♫

Lembrou? Ótimo! Então continuemos.

Apesar de não me considerar um otaku, gosto muito de animes. E Cavaleiros do Zodíaco é, sem dúvida, um dos meus favoritos. Eu acompanho a história desde que o desenho era exibido através da péssima recepção de imagem da extinta TV Manchete. Mas não é sobre esta versão do desenho que me proponho a falar.

Se a união entre animação japonesa e mitologia resulta nas fabulosas produções de Masami Kurumada, o que obteríamos se a isso se acrescesse belíssimas composições clássicas? Os fãs mais assíduos do anime já devem ter desvendado o mistério. Refiro-me a uma das versões mais recentes da história dos Cavaleiros de Atena, intitulada “Saint Seiya: The Lost Canvas – Hades Mithology”. Não é só no nome que a história se diferencia. Os episódios narram a penúltima guerra santa entre Hades e Atena, ocorrida no século XVIII, e com personagens diferentes (obviamente) – apesar de serem caracteristicamente muito parecidos com os originais, em vista da pretensão de Kurumada em reforçar o princípio da reencarnação. Por conta de novos recursos tecnológicos, os traços são mais detalhados e realistas – que fique claro, porém, que não é ao idealizador original do anime que devemos a autoria desta versão. Os créditos pertencem a Shiori Teshirogi (isso mesmo, uma mulher).

Quero me concentrar, entretanto, apenas no que diz respeito à trilha sonora do anime, assinada por Kaoru Wada. O fator musical foi, sem dúvida, um dos elementos que mais me atraiu a essa nova versão. A cada personagem e espaço-tempo associa-se uma diferente composição, que, a meu ver, parece combinar perfeitamente com seu objeto. Pouquíssimas são as canções cantadas, mais especificamente, apenas três (a música de abertura – The Realm of Athena, a música de encerramento – Hana no Kusari, e a faixa de número 29 – Death Messenger). O restante conta unicamente com sons característicos de uma orquestra ou de um coral, dignos de qualquer grande compositor ou trilha de produção cinematográfica.

Talvez o fato de a maioria das faixas contar com a utilização do meu instrumento musical favorito, o violino (nada mais comum, em vista do fato de se tratarem de composições clássicas), tenha despertado em mim maior interesse. Mas o fator principal ao qual se deve a qualidade desta produção é o modo como foram combinados bem sucedidamente elementos que em certa dimensão se assemelham e em outra se distinguem. Isso já é característica constatada em Cavaleiros do Zodíaco. Mas em nível musical, de que forma isso se materializa?

Bem, além de animação ao estilo japonês, mitologia e composições clássicas, contra todas as expectativas, há algo mais que torna o anime tão magnífico – a presença de elementos góticos. Os elementos religiosos e sombrios se fazem presentes do começo ao fim, tanto arquitetonicamente falando (os domínios terrestres de Hades, por exemplo), quanto estilisticamente, – Pandora (foto) que o diga – ou, ainda, o que mais nos interessa, musicalmente. Óbvio que isso se deve ao enredo da trama, que se trata duma batalha contra o Imperador do Submundo. Assim como Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, mesclou os elementos clássicos pagãos aos cristãos, em The Lost Canvas, o mesmo ocorre. Por isso as mitologias grega e cristã se entrelaçam a todo tempo.

Como todo mundo sabe (ou ao menos deveria saber), o estilo gótico é predominantemente cristão. Depois de algum tempo foi-lhe acrescida essa conotação satânica, tão explorada pelas atuais bandas de heavy metal e hardcore, sem que, de qualquer forma, perdesse sua essência melancólica, pessimista e sobrenatural. Mas o elemento musical gótico que marca presença na produção japonesa nada tem a ver com esses arranjos pesados de rock ou com adoração demoníaca. Refiro-me pura e simplesmente às composições clássicas de raízes medievais que atingiram sua maturidade na Idade Moderna, como o canto a capela (cantochão) e o canto gregoriano, obras transbordantes de religiosidade.

Enfim, Saint Seiya: The Lost Canvas é uma fonte ilimitada de referências histórico-artísticas e mitológicas. É um manifesto ao bom gosto. Emocionante, dramático, trágico, vivaz, romântico, agitado, tétrico e tudo mais que lhe puder ser proporcionado por essa magnífica produção. Aos que quiserem assistir, aconselho prestar especial atenção às músicas. Contemplar traços bem delineados, movimentos realistas e uma trama envolvente torna-se muito mais agradável com uma bela e harmônica consecução de notas ao fundo.

Aos interessados, alguns links úteis, dentre os quais encontram-se disponibilizados a trilha sonora e os episódios para download, além dum breve vídeo de apresentação.

Ficha Técnica . Episódios (Download)* . Trilha Sonora (Download)**

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Bom Proveito!

*Os episódios não foram disponibilizados por mim, muito menos faço eu parte da organização do website que disponibiliza o anime para download. Dei-me ao trabalho pura e simplesmente de divulgar aqui o local que me foi indicado pela maioria das pesquisas.

**Assim como os episódios acima descritos, não é de minha responsabilidade o link disponibilizado para download da trilha sonora original do anime. O link foi disponibilizado pelo website brasileiro “Portal Saint Seiya“, na categoria “Trilhas Sonoras“, páginas também indicadas por buscas virtuais.

Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire)

28 dez

São exatamente 01h57min, do dia 28 de dezembro de 2010, eu estou morrendo de sono e me perguntando o que está me impelindo a molhar de minuto em minuto o rosto com água fria para escrever numa hora dessas. Eu acabei de assistir ao filme cujo nome usei para intitular este texto e, ao final, me ocorreram idéias literárias que, por medo de escaparem após uma noite de sono, materializarei hoje. Esta produção poderia perfeitamente estar na lista do post anterior, sobre filmes que me fizeram chorar ou sentir vontade, mas felizmente o assisti depois de ter escrito o texto em questão, o que me possibilita dedicar um espaço exclusivo para este longa no blog.

Meu dia começou nublado e prosseguiu numa tempestade silenciosa de tédio e falta de expectativas. Tentei escrever sobre outros temas, cheguei a iniciar um texto, mas não o terminei, planejei arrumar o meu quarto, mas a preguiça me venceu, tentei assistir um filme, que, até onde pude ver, me pareceu muito bom, mas pelo incômodo que me é ficar sentado tanto tempo, interrompi, e já planejava entregar-me ao sono quando me lembrei que esse filme seria exibido. Ingeri uma dose extra de café e o assisti do início ao fim, o que permitiu que meu dia tempestuoso terminasse numa explosão de cores. Os motivos? Bem, vejamos:

O filme é completamente rodado na Índia (ainda que a produção seja britânica), mas me rememora um formato literário tipicamente europeu, os contos de fada. Não há princesas, nem duendes, nem bruxas ou unicórnios. É um conto mais realista e existencialista, onde os personagens, mesmo crendo no destino, tecem suas próprias linhas, olham por si próprios e por seus amados com uma abnegação que deixaria qualquer cristão envergonhado. Vemos os três personagens centrais desde muito pequenos até o início da vida adulta. Jamal, seu irmão Salim e sua amiga Latika ficaram órfãos precocemente, aprenderam a se virar sozinhos nas ruas de Mumbai, foram explorados, arriscaram suas vidas, se separam, se reencontraram, se separaram de novo, reuniram-se novamente, e em cada novo encontro, procedido dum desencontro, os víamos maiores e com problemas de gente grande.

Por ocasião de uma separação, Jamal se inscreveu num famoso programa de TV, de modo que sua agora amada Latika o pudesse ver e saber onde se encontrava. Vemos o desenrolar final da trama, o ápice da tragédia e da comédia, e o modo como todas as experiências dos personagens contribuíram para que estivem naqueles determinados lugares, daquele determinado modo, como se, de verdade, tudo estivesse escrito. As circunstâncias poderiam ser outras, mas assim não haveria emoção. A cada cena, o espectador chora, ri, se emociona, sente raiva, apreensão, repugnância e todo um “ménage” de sentimentos e emoções humanas.

O fim, que não contarei, me causou essa automática associação da história com os contos de fada. Como terminam todos eles? “E viveram felizes para sempre”. Bem, se o filme realmente terminasse assim, seria errôneo o emprego do adjetivo “realista” para descrevê-lo. Mas o que há em comum entre este e aqueles é que dá para extrair da história indiana a mesma lição universal que é passada para as crianças pelas releituras e adaptações dos contos dos irmãos Wilhelm e Jacob Grimm. Você pode comer o pão que o diabo amassou durante quase toda a sua vida ou em partes isoladas dela, mas, cedo ou tarde, vai haver rios de chocolate e campos floridos pra você também – por alguns momentos, ao menos.

De qualquer forma, creio que todos gostem de ver vencedores por mérito, histórias – reais ou fictícias, de indivíduos que tiveram por merecer, que sofreram, perderam, apanharam, choraram, lutaram com unhas, dentes, ossos, fios de cabelo e todas as organelas das células do corpo, para finalmente ganharem seu lugar ao sol. Garanto que o clímax do filme faz toda a apreensão valer à pena, e é daqueles que nos faz sentir vingados por todos os nossos infortúnios, mesmo que se trate apenas de histórias de personagens inexistentes – ainda que pudesse ser perfeitamente o caso de qualquer trio de crianças órfãs da Índia.

Além de todos os elementos acima descritos, a trilha sonora do filme não deixa a desejar. Não é por acaso que a produção faturou inúmeras premiações, incluindo uma série de Oscars e Globos de Ouro. Ah, e não esqueçamos, não pode haver história na Índia sem ao menos uma dança, cena que você confere logo abaixo:

Bom Proveito!

Filmes, Lenços e Esquizofrenia

22 dez

Poucos são os filmes que me fazem chorar ou sentir vontade. Eu acho que até poderia contá-los nos dedos. Não me refiro apenas aos tristes. Tanto um drama, quanto um épico, uma aventura ou um romance podem por minhas glândulas lacrimais para trabalhar. Geralmente acontece quando um personagem se sacrifica para salvar outro, quando há uma catástrofe apocalíptica na qual muitos morrem, quando algum deles demonstra poder e vivacidade além da conta, ou quando há cenas excessivamente cruéis e dolorosas. Os diretores têm ainda a perspicácia de colocar uma trilha, digamos, dramática, ao fundo, o que resulta num simultâneo estímulo de vários sentidos, e a reação não poderia ser outra – lenços de papel para que te quero!

Lembro que o primeiro filme que causou esse efeito em mim foi “Titanic”. Eu devia ter uns sete anos. Ver uma mãe pondo seus filhos para dormir, enquanto o navio afundava, para que não sofressem quando a água enchesse seus pulmões, um casal de idosos abraçados na cama, esperando serenamente a morte, pessoas e pessoas correndo e gritando de desespero e o sacrifício de Jack para salvar Rose de congelar ou morrer afogada foram suficientes para me extrair algumas lágrimas. Porém, essas algumas lágrimas tornaram-se um verdadeiro riacho lacrimal quando Rose se viu obrigada a desprender o corpo congelado de Jack da tábua na qual estavam e deixá-lo afundar no mar gelado do Atlântico Norte.

Poucos anos depois, em 2001, assisti ao filme “Joana D’Arc de Luc Besson”, com Milla Jovovich. A minha cabeça infantil não conseguiu entender a totalidade contextual do filme. Via uma moça religiosa (aparentemente esquizofrênica) pedir um exército ao rei, partir para guerra, vencer muitas batalhas, ser capturada, julgada e queimada viva em praça pública. Para mim, que jamais havia ouvido falar em Guerra dos Cem Anos, heresia, Tribunal da Inquisição etc., queimar viva uma menina que nem sequer tinha chegado à casa dos 20 e por pura vingança era um ato de extrema crueldade. Eu via com o coração partido a moça agonizar enquanto as chamas ardiam sobre seu corpo, desfigurando-o completamente. O pior de tudo eram os gritos de agonia, que acompanharam meus pesadelos por semanas a fio. Não sei qual dos destinos foi o pior, o de Jack, que morreu congelado, ou o de Joana, que foi reduzida a cinzas (viva). Nessa ocasião, as lágrimas também molharam meu rosto.

Muito tempo se passou até que outra produção me emocionasse a ponto de, dessa vez, apenas marejar meus olhos. Não por tristeza, mas por orgulho. Não sei bem orgulho de que, mas não imagino que outra palavra poderia ser usada para descrever o sentimento que me acometeu ao assistir “Elizabeth – A Era de Ouro”, com Kate Blanchett (uma das minhas atrizes favoritas). Ver a primeira das rainhas da dinastia Tudor a receber o nome Elizabeth governar sozinha uma nação, ser amada e respeitada antes de temida, e o contraste entre sua vida de luxo e a vida política e amorosa foram um deleite para os meus sentidos e curiosidade histórica. Mas o ápice, a cena maior e mais vivaz que fez minha espinha se agitar sentado na poltrona, foi quando a rainha inglesa questionava o embaixador espanhol acerca dos navios castelhanos que circundavam a margem de determinada parte do litoral britânico. Por conta da impaciência da rainha (que soltava frases num espanhol impecável) em vista das negações do embaixador que dizia não saber a respeito dos navios e das pretensões de Filipe II, rei da Espanha, em impor o catolicismo ao único reino que persistia em se manter protestante, terminou este por ofendê-la, o que acabou por fazer o sangue da soberana subir à cabeça e, aos berros, expulsar os espanhóis de seu país.

* * *


Toda essa breve introdução, voltas e voltas, serviram para dar passagem ao tema principal deste texto, o longa estrelado por Jake Gyllenhaal em 2001, Donnie Darko. Eu já tinha escutado sobre esse filme uma ou duas vezes. Comentários positivos, até. Mas à primeira escuta, o nome me soava como um daqueles filmes de rebeldes sem causa da década de 60, estilo que nunca me atraiu muito, apesar de não desgostar completamente. Porém, nesse início de férias, sem ter muito o que fazer, decidi me dedicar a baixar e assistir filmes, e um dos primeiros da lista era justamente este. Queria matar a minha curiosidade, saber o que atraía tanto tantas pessoas, e uma delas em específico, visto que é tão exigente artisticamente (oi, Bruno! ^^).

Logo nas primeiras cenas, eu soube que ia adorar aquele filme. Chamem-me do que quiser, mas gosto de filmes cujos personagens centrais são adolescentes. Não apenas os de comédia, estrelados por Lindsay Lohan ou Hilary Duff, nem aqueles cujos conflitos adolescentes são o ponto fulcral. No caso de Donnie Darko, apesar do personagem principal (ele próprio) ser um adolescente, o filme não gira em torno de decepções amorosas, hormônios a flor da pele, rebeldia etc. Todos esses elementos encontram-se presentes na produção, mas não é em torno deles que gira o enredo.

Donald Darko é um adolescente que não se adapta muito aos padrões da sua conservadora cidade Middlesex. Aliás, toda sua família parece ser mais moderna em relação aos arcaicos moradores daquela cidade. Arcaicos e hipócritas, em contraste com a sinceridade excessiva da família Darko. Além disso, Donnie sofre de esquizofrenia (assim como a personagem histórica francesa), e passa a receber ordens dum coelho gigante que afirma que o mundo acabará em pouco menos de um mês. Ao longo da saga, o protagonista passa a namorar uma garota chamada Gretchen (sem comparações, por favor), a investigar acerca de viagens no tempo, a questionar (com o intuito de desmascarar) um apresentador local dono de um programa de auto-ajuda fajuto e descobre que uma velha com problemas mentais era uma ex-professora da escola em que ele estuda e que escreveu o livro que o ajudaria a entender mais a matéria sobre a qual investigava (ou talvez o efeito fosse reverso).

A atmosfera da trama é densa. Um suspense de qualidade, daqueles que lhe prendem na frente da TV (ou do PC) até o último momento. Richard Kelly, o diretor, foi bem sucedido se o objetivo dele era intrigar a platéia. É difícil saber, no filme, o que é ilusão e o que é real (acredito que os esquizofrênicos não se preocupem muito em distinguir). O personagem conseguia, a um só tempo, parecer perfeitamente normal e preocupantemente perturbado. As sessões hipnóticas com a terapeuta eram especialmente interessantes. No sono controlado, descobriam-se os principais medos do menino que parecia tão indiferente a tudo e a todos. Além do mais, vemos o mais novo dos irmãos Gyllenhaal completamente diferente daquele que observamos na atualidade – cabelos escuros, coluna curvada, músculos de menos e talento de sobra (essa última característica, entretanto, ele conservou). Sem contar que é muito difícil não gostar dum filme no qual contracenam Jake e Drew Barrymore (como uma estilisticamente clássica, porém interiormente moderna professora de literatura).

Não contarei mais nada sobre o filme para não estragar a surpresa e o final surpreendente. Final este que, por sinal, também me rendeu algumas lágrimas – caso contrário, toda aquela introdução não teria servido de nada. É quase impossível não se deixar entristecer por uma cena que, por si só, já é bastante lamentável, e que, ainda por cima, recebe como trilha sonora a versão de Gary Jules da canção “Mad World”, de 1982, da banda Tears for Fears. Eu gostaria de pôr aqui justamente o vídeo da parte mais emocionante do filme, mas como se trata do final, caso eu o fizesse, o texto teria o efeito contrário ao que planejei. Ao invés de incitar a curiosidade, eu a satisfaria. Portanto, me limitarei a colocar apenas o trailer do filme e o videoclipe da canção mais tocante da trilha. Caso queiram assistir o filme, não é difícil encontrá-lo disponível para download em blogs especializados. Sem mais delongas, eis os vídeos:


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Bom Proveito!

Leeloo e Plavalaguna

10 dez

Primeiramente, gostaria de me desculpar pela demora em atualizar o blog. Ultimamente, as circunstâncias não estavam muito favoráveis ao exercício da escrita, a não ser, é claro, quando se tratasse de trabalhos acadêmicos, em relação aos quais não há escolha. Aliás, escolha até há, mas as conseqüências fazem com que a opção negativa deixe de valer à pena. Reprovação não é algo legal. Quem faz faculdade sabe o quão estressante um final de semestre pode ser. Mas, felizmente, estou quase de férias, e poderei dedicar mais atenção ao blog que, segundo o Bruno, estava entregue às moscas (risos).

Não é sobre faculdade, entretanto, que quero falar. Ninguém sabe, mas eu tenho uma lista de temas sobre os quais pretendo discorrer aqui. Eu planejava segui-la, mas lamentavelmente não consegui desenvolver nenhum dos temas que, a priori, tinha vontade. Nem os conselhos de auto-ajuda literários tão bem expostos a partir da obra de Rainer Maria Rilke (leia-o aqui), por meu já citado amigo Bruno Amaral, me deram jeito.

Decidi, então, ignorar provisoriamente a minha lista e escrever sobre um tema aleatório, mas que, obviamente, não fugisse do meu gosto. Ontem acessei minha conta no Facebook e vi que o Beto havia postado um vídeo que seria um interessantíssimo tema para o meu atual post. Compartilho-o agora, com vocês.

Duas coisas me motivam a assistir incansavelmente a reprise do filme O Quinto Elemento (The Fifth Element), de 1997. Primeiro, Milla Jovovich, uma das atrizes mais talentosas, bonitas e radicais cujo trabalho eu tive a felicidade de apreciar. Radical é, sem dúvida, uma das características principais da musa ucraniana, que apesar de ter sido primeiramente notada no filme de romance e aventura datado de 1991, De Volta à Lagoa Azul (Return to the Blue Lagoon), como Lili Hargrave, ficou mundialmente conhecida pelos inúmeros filmes de ação que estrelou (Resident Evil, por exemplo) e continua estrelando até a atualidade.

O segundo motivo é a cena na qual a personagem alienígena azul que canta ópera, Diva Plavalaguna, interpretada pela atriz e produtora francesa Maïwenn Le Besco, entoa a canção Il Dolce Suono, trecho da ópera Lucia Di Lammermoor, do compositor italiano Gaetano Donizeti. Tal canção já foi também material dum trabalho do contra tenor letão Vitas, em parceria com a dupla de violinistas russas Vibracia, ambos temas anteriores de textos do blog.

Na voz da alienígena, a canção começa no ritmo tradicional, calmo, suave. A cena da apresentação é contextualizada com uma invasão da nave por parte de outros ETs malignos que querem roubar as quatros pedras místicas que podem salvar a Terra da destruição – uma das quais se encontra sob a posse da cantora. Ao passo que a canção vai ficando mais trágica, mais trágicos tornam-se também os acontecimentos. A nave torna-se um verdadeiro campo de batalha, no qual Leeloo (Milla Jovovich), sozinha, tenta deter os Mangalores (os aliens do mal). Diva deixa, então, a canção original e passa a emitir seus graves e agudos num ritmo mais animado, pop, para dar vida a outra música, “The Diva Dance Song”. O ritmo serve de plano de fundo para a temporária vitória de Leeloo sobre os vilões. As notas vocais terminam num agudo elevado, seguido dum soco duplo da personagem de Jovovich na face dos malvados e num movimento dinâmico dos braços de Diva (na qual ela os abre, formando uma cruz com o próprio corpo), seguido pelo mesmo movimento de Leeloo.

Os créditos pela perfeita atuação, pelos movimentos harmônicos, pelas dramáticas expressões e pelo êxtase tão bem exprimido pela personagem Plavalaguna são de Maïwenn Le Besco. A voz, porém, não pertence à atriz francesa. Parcela dos aplausos deve ser dedicada à soprano albanesa Inva Mulla Tchako, a voz por trás da gigante azul. Em nível de informação, as notas finais de “The Diva Dance Song” foram computadorizadas, visto que, obviamente, nenhum ser humano seria capaz de emitir notas naquela velocidade (quem sabe, talvez, um alienígena, mas nós ainda não atingimos essa escala da evolução – risos).

O resultado da perfeita combinação entre a interpretação de Maïwenn e da voz de Inva, juntamente com a atuação de Milla Jovovich, vocês conferem no video abaixo.


Bom Proveito!

A Cowboy Needs a Horse

24 out

Quem não se lembra dos desenhos mais antigos da Disney Records que marcaram a infância de tantos que hoje já são adultos, pais e mães? Os episódios de Mickey e Donald eram e ainda são exibidos no Brasil por uma ou outra emissora desde a década de 60. Quem não presenciou um dos acessos de ira do Pato Donald ou uma das maluquices do Pateta e as confusões nas quais o Mickey, junto com seu inseparável cão, Pluto, se metiam?

Nos anos 90, período de minha infância, eu me gabo de ter assistido todos os episódios exibidos na TV, os quais eu suspeito datarem da década de 50 e posteriores (apesar da ótima qualidade de som e imagem) – fato que abstraio das vestes dos personagens figurantes, dos padrões arquitetônicos das casas, do formato do televisor etc.

Dentre todos os episódios exibidos, porém, alguns deles não eram estrelados pelos personagens habituais. Havia uma produção que eu muito gosto, na qual pus os olhos pela primeira vez lá pelos meus 4 ou 5 anos de  idade e que só muito recentemente tive a felicidade de encontrar na rede. Data do ano de 1956 (nem minha mãe era nascida ainda). Provavelmente as crianças de hoje não apreciariam nem dariam muita atenção à história do menino Johnny, que vivia numa grande cidade e toda noite sonhava que era um cowboy benfeitor.

A animação chama-se “A Cowboy Needs a Horse” (Um Cowboy Precisa de um Cavalo) e os créditos pela direção do “cartoon” pertencem a Bill Justice, que soube combinar perfeitamente os elementos componentes, de modo a formar essa obra única que remete à certa melancolia, nos cria um repentino desejo de aventuras não vividas e saudades dos inocentes anos iniciais de nossas vidas.

Cada parte é imprescindível para a perfeição do todo. Os traços tão característicos do estilo da época, as cores, as formas e até os brinquedos espalhados pelo chão do quarto do menino evocam em nós certo efeito nostálgico. Mas nenhum componente, nenhum elemento, nenhuma parte supera em nostalgia a música, a canção homônima de autoria de Paul Mason Howard e Billy Mills, tão “old-fashioned”, com as vozes em uníssono e sonoridade que nos parece advinda de um disco de vinil executado em uma daquelas antigas vitrolas. Lembra mesmo uma canção de ninar, mas a do tipo que você faz questão de ficar acordado para ouvir até o fim.

Tudo isso exposto, imaginem a emoção quando finalmente encontro algo que tenho procurado há anos. Eu não cheguei a pular de alegria, mas fiquei bastante inquieto. Repeti inúmeras vezes o capítulo e o mostrei para alguns familiares que, não surpreendentemente, também se lembravam nitidamente do episódio.

O desenho foi compilado em várias coletâneas, dentre as quais estão “Cartoon Classics: First Series (Volume 12) – Disney’s Tall Tales”; o LD lançado no Japão, “Donald Duck Goes West”; nos Estados Unidos, dois DVDs, “Disney Treasures: Disney Raritiers – Celebrated Shorts, 1920s-1960s” e “It’s a Small World of Fun: Volume 1”. Foi ainda lançado junto com uma série de vídeos musicais da Disney, em março de 1987, sob o título “Disney Sing Along Songs: Heigh-Ho”.

Sem mais delongas, deixarei que os leitores assistam e tirem suas próprias conclusões. Disponibilizarei também a ficha técnica e a letra da  canção.

Bom Proveito!

– Ficha Técnica

***

 

A Cowboy Needs a Horse

Ridin’, ridin’ along…

Oh, a cowboy needs a horse, needs a horse, needs a horse
And he’s gotta have a rope, have a rope, have a rope
And he oughta’ have a song, have a song, have a song
If he wants to keep ridin’

Now a cowboy needs a hat, needs a hat, needs a hat
And a pair of fancy boots, fancy boots, fancy boots
And a set of shiny spurs, shiny spurs, shiny spurs
If he wants to keep ridin’

Oh, the fence is long, and the sun is hot
And the good Lord knows that a cowboy’s gotta keep
Ridin’, ridin’ along

So he gets himself a horse, and a rope, and a song
And he finds himself a hat, fancy boots, shiny spurs
And there’s nothing more he needs, or can have, or can get
If he wants to keep ridin’, ridin’ along

Spurs, shiny spurs
Boots, fancy boots
Sings a western song
Ro-oh-oh-ope
And a horse
If he wants to keep ridin’, ridin’ along…

ve a rope, have a rope, have a rope 

And he oughta’ have a song, have a song, have a song

If he wants to keep ridin’

 

Now a cowboy needs a hat, needs a hat, needs a hat

And a pair of fancy boots, fancy boots, fancy boots

And a set of shiny spurs, shiny spurs, shiny spurs

If he wants to keep ridin’

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oh, the fence is long, and the sun is hot

And the good Lord knows that a cowboy’s gotta keep

Ridin’, ridin’ along

 

So he gets himself a horse, and a rope, and a song

And he finds himself a hat, fancy boots, shiny spurs

And there’s nothing more he needs, or can have, or can get

If he wants to keep ridin’, ridin’ along

 

Spurs, shiny spurs

Boots, fancy boots

Sings a western song

Ro-oh-oh-ope

And a horse

If he wants to keep ridin’, ridin’ along…