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Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire)

28 dez

São exatamente 01h57min, do dia 28 de dezembro de 2010, eu estou morrendo de sono e me perguntando o que está me impelindo a molhar de minuto em minuto o rosto com água fria para escrever numa hora dessas. Eu acabei de assistir ao filme cujo nome usei para intitular este texto e, ao final, me ocorreram idéias literárias que, por medo de escaparem após uma noite de sono, materializarei hoje. Esta produção poderia perfeitamente estar na lista do post anterior, sobre filmes que me fizeram chorar ou sentir vontade, mas felizmente o assisti depois de ter escrito o texto em questão, o que me possibilita dedicar um espaço exclusivo para este longa no blog.

Meu dia começou nublado e prosseguiu numa tempestade silenciosa de tédio e falta de expectativas. Tentei escrever sobre outros temas, cheguei a iniciar um texto, mas não o terminei, planejei arrumar o meu quarto, mas a preguiça me venceu, tentei assistir um filme, que, até onde pude ver, me pareceu muito bom, mas pelo incômodo que me é ficar sentado tanto tempo, interrompi, e já planejava entregar-me ao sono quando me lembrei que esse filme seria exibido. Ingeri uma dose extra de café e o assisti do início ao fim, o que permitiu que meu dia tempestuoso terminasse numa explosão de cores. Os motivos? Bem, vejamos:

O filme é completamente rodado na Índia (ainda que a produção seja britânica), mas me rememora um formato literário tipicamente europeu, os contos de fada. Não há princesas, nem duendes, nem bruxas ou unicórnios. É um conto mais realista e existencialista, onde os personagens, mesmo crendo no destino, tecem suas próprias linhas, olham por si próprios e por seus amados com uma abnegação que deixaria qualquer cristão envergonhado. Vemos os três personagens centrais desde muito pequenos até o início da vida adulta. Jamal, seu irmão Salim e sua amiga Latika ficaram órfãos precocemente, aprenderam a se virar sozinhos nas ruas de Mumbai, foram explorados, arriscaram suas vidas, se separam, se reencontraram, se separaram de novo, reuniram-se novamente, e em cada novo encontro, procedido dum desencontro, os víamos maiores e com problemas de gente grande.

Por ocasião de uma separação, Jamal se inscreveu num famoso programa de TV, de modo que sua agora amada Latika o pudesse ver e saber onde se encontrava. Vemos o desenrolar final da trama, o ápice da tragédia e da comédia, e o modo como todas as experiências dos personagens contribuíram para que estivem naqueles determinados lugares, daquele determinado modo, como se, de verdade, tudo estivesse escrito. As circunstâncias poderiam ser outras, mas assim não haveria emoção. A cada cena, o espectador chora, ri, se emociona, sente raiva, apreensão, repugnância e todo um “ménage” de sentimentos e emoções humanas.

O fim, que não contarei, me causou essa automática associação da história com os contos de fada. Como terminam todos eles? “E viveram felizes para sempre”. Bem, se o filme realmente terminasse assim, seria errôneo o emprego do adjetivo “realista” para descrevê-lo. Mas o que há em comum entre este e aqueles é que dá para extrair da história indiana a mesma lição universal que é passada para as crianças pelas releituras e adaptações dos contos dos irmãos Wilhelm e Jacob Grimm. Você pode comer o pão que o diabo amassou durante quase toda a sua vida ou em partes isoladas dela, mas, cedo ou tarde, vai haver rios de chocolate e campos floridos pra você também – por alguns momentos, ao menos.

De qualquer forma, creio que todos gostem de ver vencedores por mérito, histórias – reais ou fictícias, de indivíduos que tiveram por merecer, que sofreram, perderam, apanharam, choraram, lutaram com unhas, dentes, ossos, fios de cabelo e todas as organelas das células do corpo, para finalmente ganharem seu lugar ao sol. Garanto que o clímax do filme faz toda a apreensão valer à pena, e é daqueles que nos faz sentir vingados por todos os nossos infortúnios, mesmo que se trate apenas de histórias de personagens inexistentes – ainda que pudesse ser perfeitamente o caso de qualquer trio de crianças órfãs da Índia.

Além de todos os elementos acima descritos, a trilha sonora do filme não deixa a desejar. Não é por acaso que a produção faturou inúmeras premiações, incluindo uma série de Oscars e Globos de Ouro. Ah, e não esqueçamos, não pode haver história na Índia sem ao menos uma dança, cena que você confere logo abaixo:

Bom Proveito!

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Filmes, Lenços e Esquizofrenia

22 dez

Poucos são os filmes que me fazem chorar ou sentir vontade. Eu acho que até poderia contá-los nos dedos. Não me refiro apenas aos tristes. Tanto um drama, quanto um épico, uma aventura ou um romance podem por minhas glândulas lacrimais para trabalhar. Geralmente acontece quando um personagem se sacrifica para salvar outro, quando há uma catástrofe apocalíptica na qual muitos morrem, quando algum deles demonstra poder e vivacidade além da conta, ou quando há cenas excessivamente cruéis e dolorosas. Os diretores têm ainda a perspicácia de colocar uma trilha, digamos, dramática, ao fundo, o que resulta num simultâneo estímulo de vários sentidos, e a reação não poderia ser outra – lenços de papel para que te quero!

Lembro que o primeiro filme que causou esse efeito em mim foi “Titanic”. Eu devia ter uns sete anos. Ver uma mãe pondo seus filhos para dormir, enquanto o navio afundava, para que não sofressem quando a água enchesse seus pulmões, um casal de idosos abraçados na cama, esperando serenamente a morte, pessoas e pessoas correndo e gritando de desespero e o sacrifício de Jack para salvar Rose de congelar ou morrer afogada foram suficientes para me extrair algumas lágrimas. Porém, essas algumas lágrimas tornaram-se um verdadeiro riacho lacrimal quando Rose se viu obrigada a desprender o corpo congelado de Jack da tábua na qual estavam e deixá-lo afundar no mar gelado do Atlântico Norte.

Poucos anos depois, em 2001, assisti ao filme “Joana D’Arc de Luc Besson”, com Milla Jovovich. A minha cabeça infantil não conseguiu entender a totalidade contextual do filme. Via uma moça religiosa (aparentemente esquizofrênica) pedir um exército ao rei, partir para guerra, vencer muitas batalhas, ser capturada, julgada e queimada viva em praça pública. Para mim, que jamais havia ouvido falar em Guerra dos Cem Anos, heresia, Tribunal da Inquisição etc., queimar viva uma menina que nem sequer tinha chegado à casa dos 20 e por pura vingança era um ato de extrema crueldade. Eu via com o coração partido a moça agonizar enquanto as chamas ardiam sobre seu corpo, desfigurando-o completamente. O pior de tudo eram os gritos de agonia, que acompanharam meus pesadelos por semanas a fio. Não sei qual dos destinos foi o pior, o de Jack, que morreu congelado, ou o de Joana, que foi reduzida a cinzas (viva). Nessa ocasião, as lágrimas também molharam meu rosto.

Muito tempo se passou até que outra produção me emocionasse a ponto de, dessa vez, apenas marejar meus olhos. Não por tristeza, mas por orgulho. Não sei bem orgulho de que, mas não imagino que outra palavra poderia ser usada para descrever o sentimento que me acometeu ao assistir “Elizabeth – A Era de Ouro”, com Kate Blanchett (uma das minhas atrizes favoritas). Ver a primeira das rainhas da dinastia Tudor a receber o nome Elizabeth governar sozinha uma nação, ser amada e respeitada antes de temida, e o contraste entre sua vida de luxo e a vida política e amorosa foram um deleite para os meus sentidos e curiosidade histórica. Mas o ápice, a cena maior e mais vivaz que fez minha espinha se agitar sentado na poltrona, foi quando a rainha inglesa questionava o embaixador espanhol acerca dos navios castelhanos que circundavam a margem de determinada parte do litoral britânico. Por conta da impaciência da rainha (que soltava frases num espanhol impecável) em vista das negações do embaixador que dizia não saber a respeito dos navios e das pretensões de Filipe II, rei da Espanha, em impor o catolicismo ao único reino que persistia em se manter protestante, terminou este por ofendê-la, o que acabou por fazer o sangue da soberana subir à cabeça e, aos berros, expulsar os espanhóis de seu país.

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Toda essa breve introdução, voltas e voltas, serviram para dar passagem ao tema principal deste texto, o longa estrelado por Jake Gyllenhaal em 2001, Donnie Darko. Eu já tinha escutado sobre esse filme uma ou duas vezes. Comentários positivos, até. Mas à primeira escuta, o nome me soava como um daqueles filmes de rebeldes sem causa da década de 60, estilo que nunca me atraiu muito, apesar de não desgostar completamente. Porém, nesse início de férias, sem ter muito o que fazer, decidi me dedicar a baixar e assistir filmes, e um dos primeiros da lista era justamente este. Queria matar a minha curiosidade, saber o que atraía tanto tantas pessoas, e uma delas em específico, visto que é tão exigente artisticamente (oi, Bruno! ^^).

Logo nas primeiras cenas, eu soube que ia adorar aquele filme. Chamem-me do que quiser, mas gosto de filmes cujos personagens centrais são adolescentes. Não apenas os de comédia, estrelados por Lindsay Lohan ou Hilary Duff, nem aqueles cujos conflitos adolescentes são o ponto fulcral. No caso de Donnie Darko, apesar do personagem principal (ele próprio) ser um adolescente, o filme não gira em torno de decepções amorosas, hormônios a flor da pele, rebeldia etc. Todos esses elementos encontram-se presentes na produção, mas não é em torno deles que gira o enredo.

Donald Darko é um adolescente que não se adapta muito aos padrões da sua conservadora cidade Middlesex. Aliás, toda sua família parece ser mais moderna em relação aos arcaicos moradores daquela cidade. Arcaicos e hipócritas, em contraste com a sinceridade excessiva da família Darko. Além disso, Donnie sofre de esquizofrenia (assim como a personagem histórica francesa), e passa a receber ordens dum coelho gigante que afirma que o mundo acabará em pouco menos de um mês. Ao longo da saga, o protagonista passa a namorar uma garota chamada Gretchen (sem comparações, por favor), a investigar acerca de viagens no tempo, a questionar (com o intuito de desmascarar) um apresentador local dono de um programa de auto-ajuda fajuto e descobre que uma velha com problemas mentais era uma ex-professora da escola em que ele estuda e que escreveu o livro que o ajudaria a entender mais a matéria sobre a qual investigava (ou talvez o efeito fosse reverso).

A atmosfera da trama é densa. Um suspense de qualidade, daqueles que lhe prendem na frente da TV (ou do PC) até o último momento. Richard Kelly, o diretor, foi bem sucedido se o objetivo dele era intrigar a platéia. É difícil saber, no filme, o que é ilusão e o que é real (acredito que os esquizofrênicos não se preocupem muito em distinguir). O personagem conseguia, a um só tempo, parecer perfeitamente normal e preocupantemente perturbado. As sessões hipnóticas com a terapeuta eram especialmente interessantes. No sono controlado, descobriam-se os principais medos do menino que parecia tão indiferente a tudo e a todos. Além do mais, vemos o mais novo dos irmãos Gyllenhaal completamente diferente daquele que observamos na atualidade – cabelos escuros, coluna curvada, músculos de menos e talento de sobra (essa última característica, entretanto, ele conservou). Sem contar que é muito difícil não gostar dum filme no qual contracenam Jake e Drew Barrymore (como uma estilisticamente clássica, porém interiormente moderna professora de literatura).

Não contarei mais nada sobre o filme para não estragar a surpresa e o final surpreendente. Final este que, por sinal, também me rendeu algumas lágrimas – caso contrário, toda aquela introdução não teria servido de nada. É quase impossível não se deixar entristecer por uma cena que, por si só, já é bastante lamentável, e que, ainda por cima, recebe como trilha sonora a versão de Gary Jules da canção “Mad World”, de 1982, da banda Tears for Fears. Eu gostaria de pôr aqui justamente o vídeo da parte mais emocionante do filme, mas como se trata do final, caso eu o fizesse, o texto teria o efeito contrário ao que planejei. Ao invés de incitar a curiosidade, eu a satisfaria. Portanto, me limitarei a colocar apenas o trailer do filme e o videoclipe da canção mais tocante da trilha. Caso queiram assistir o filme, não é difícil encontrá-lo disponível para download em blogs especializados. Sem mais delongas, eis os vídeos:


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Bom Proveito!

Leeloo e Plavalaguna

10 dez

Primeiramente, gostaria de me desculpar pela demora em atualizar o blog. Ultimamente, as circunstâncias não estavam muito favoráveis ao exercício da escrita, a não ser, é claro, quando se tratasse de trabalhos acadêmicos, em relação aos quais não há escolha. Aliás, escolha até há, mas as conseqüências fazem com que a opção negativa deixe de valer à pena. Reprovação não é algo legal. Quem faz faculdade sabe o quão estressante um final de semestre pode ser. Mas, felizmente, estou quase de férias, e poderei dedicar mais atenção ao blog que, segundo o Bruno, estava entregue às moscas (risos).

Não é sobre faculdade, entretanto, que quero falar. Ninguém sabe, mas eu tenho uma lista de temas sobre os quais pretendo discorrer aqui. Eu planejava segui-la, mas lamentavelmente não consegui desenvolver nenhum dos temas que, a priori, tinha vontade. Nem os conselhos de auto-ajuda literários tão bem expostos a partir da obra de Rainer Maria Rilke (leia-o aqui), por meu já citado amigo Bruno Amaral, me deram jeito.

Decidi, então, ignorar provisoriamente a minha lista e escrever sobre um tema aleatório, mas que, obviamente, não fugisse do meu gosto. Ontem acessei minha conta no Facebook e vi que o Beto havia postado um vídeo que seria um interessantíssimo tema para o meu atual post. Compartilho-o agora, com vocês.

Duas coisas me motivam a assistir incansavelmente a reprise do filme O Quinto Elemento (The Fifth Element), de 1997. Primeiro, Milla Jovovich, uma das atrizes mais talentosas, bonitas e radicais cujo trabalho eu tive a felicidade de apreciar. Radical é, sem dúvida, uma das características principais da musa ucraniana, que apesar de ter sido primeiramente notada no filme de romance e aventura datado de 1991, De Volta à Lagoa Azul (Return to the Blue Lagoon), como Lili Hargrave, ficou mundialmente conhecida pelos inúmeros filmes de ação que estrelou (Resident Evil, por exemplo) e continua estrelando até a atualidade.

O segundo motivo é a cena na qual a personagem alienígena azul que canta ópera, Diva Plavalaguna, interpretada pela atriz e produtora francesa Maïwenn Le Besco, entoa a canção Il Dolce Suono, trecho da ópera Lucia Di Lammermoor, do compositor italiano Gaetano Donizeti. Tal canção já foi também material dum trabalho do contra tenor letão Vitas, em parceria com a dupla de violinistas russas Vibracia, ambos temas anteriores de textos do blog.

Na voz da alienígena, a canção começa no ritmo tradicional, calmo, suave. A cena da apresentação é contextualizada com uma invasão da nave por parte de outros ETs malignos que querem roubar as quatros pedras místicas que podem salvar a Terra da destruição – uma das quais se encontra sob a posse da cantora. Ao passo que a canção vai ficando mais trágica, mais trágicos tornam-se também os acontecimentos. A nave torna-se um verdadeiro campo de batalha, no qual Leeloo (Milla Jovovich), sozinha, tenta deter os Mangalores (os aliens do mal). Diva deixa, então, a canção original e passa a emitir seus graves e agudos num ritmo mais animado, pop, para dar vida a outra música, “The Diva Dance Song”. O ritmo serve de plano de fundo para a temporária vitória de Leeloo sobre os vilões. As notas vocais terminam num agudo elevado, seguido dum soco duplo da personagem de Jovovich na face dos malvados e num movimento dinâmico dos braços de Diva (na qual ela os abre, formando uma cruz com o próprio corpo), seguido pelo mesmo movimento de Leeloo.

Os créditos pela perfeita atuação, pelos movimentos harmônicos, pelas dramáticas expressões e pelo êxtase tão bem exprimido pela personagem Plavalaguna são de Maïwenn Le Besco. A voz, porém, não pertence à atriz francesa. Parcela dos aplausos deve ser dedicada à soprano albanesa Inva Mulla Tchako, a voz por trás da gigante azul. Em nível de informação, as notas finais de “The Diva Dance Song” foram computadorizadas, visto que, obviamente, nenhum ser humano seria capaz de emitir notas naquela velocidade (quem sabe, talvez, um alienígena, mas nós ainda não atingimos essa escala da evolução – risos).

O resultado da perfeita combinação entre a interpretação de Maïwenn e da voz de Inva, juntamente com a atuação de Milla Jovovich, vocês conferem no video abaixo.


Bom Proveito!

And will we ever end up together?

20 ago

Ainda me lembro como se fosse ontem a primeira vez que pus os olhos numa das melhores produções de Tim Burton, The Nightmare Before Christmas (ou O Estranho Mundo de Jack, na versão brasileira). Eu devia ter em torno de 4 ou 5 anos. Geralmente, essa animação era exibida tarde da noite na véspera de Natal. Quando o medo não superava a curiosidade ou quando eu não caía de sono, assistia até o fim. Porém, durante longos anos, esse magnífico trabalho cinematográfico deixou de ser exibido em canais abertos e, pouco a pouco, as lembranças foram adormecendo até chegar um momento em que eu nem sequer me rememorava da existência desse filme.

Entretanto, a despeito da impressão que essa pequena introdução possa passar, cinema não é a temática deste texto. Aliás, poder-se-ia dizer que é, porém não exclusivamente. A minha intenção aqui é discorrer principalmente sobre uma das faixas da incrível trilha sonora desta produção, assinada por Danny Elfman. A música a qual me refiro chama-se “Sally’s Song” (Canção da Sally) e, na dublagem original, era executada pela voz da atriz canadense Catherine O’Hara, que apesar de não ser cantora é, certamente, uma adepta da opinião de que artistas não devem se limitar apenas a uma única forma de expressão.

Esta trilha sonora, assim como o filme, data de 1993. Porém, nos últimos anos, ganhou novas versões – como em 2006, quando 11 das 20 faixas originais foram regravadas pelas vozes de alguns artistas contemporâneos, além do próprio Danny Elfman, que além de produzir, também participa como cantor. Nesta versão, a música tema da personagem Sally é interpretada pela excêntrica cantora norte-americana Fiona Apple.

Apesar de já ter conhecimento desta regravação, nunca a tinha ouvido. Nunca havia, também, escutado a voz da nova intérprete que eu só conhecia por fotos e cuja voz, a julgar pela aparência da artista, acreditava ser doce e aguda. No último fim de semana, contudo, estava a conversar com um amigo, o Beto, e, em meio à conversa, ele acabou me impelindo a escutar a versão da cantora, sob a afirmação de que sua voz enquadrava-se mais com o perfil da personagem do que a voz da última intérprete, sobre quem logo falarei e de quem sou fã assumido.

Ouvir a voz de Fiona interpretando a canção primeiramente entoada por Catherine me conduziu a uma sensação estranhamente boa. De fato, a voz tinha muito a ver com a personagem. Era depressiva, profunda, visceral, apaixonada e ao mesmo tempo grave. As antigas impressões de voz aguda e doce que eu associava a Miss Apple caíram por terra. Não que isso seja ruim, pelo contrário. É uma voz muito bonita que, em vista da gravidade de seu tom, contrasta com o suave rostinho de anjo da cantora. Se vocês prestarem bastante atenção, vão perceber que a percussão da música, no início e no fim da canção, simula, propositalmente, batidas de coração, que no meio da música são substituídas pelo som da bateria. Eu poderia passar horas relatando minha experiência auditiva, mas prefiro que os leitores tirem suas próprias conclusões. Assistam ao vídeo logo abaixo:

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No dia 30 de setembro de 2008, – cinco dias após o meu aniversário de 18 anos – sob o título “Nightmare Revisited”, foi lançado o álbum que continha as 20 faixas originais da trilha sonora, cantadas por novos artistas. Diferentemente das outras versões, Danny Elfman não é o único a assinar a produção desse álbum. Seu trabalho faz-se presente, porém apenas nas canções de abertura e encerramento. Imaginem a minha surpresa e felicidade ao descobrir que, desta vez, a Canção da Sally seria interpretada pela vocalista da banda que mais admiro desde os meus 12 anos de idade, ou seja, ninguém mais ninguém menos que Amy Lee, a líder do grupo Evanescence. Sem contar que Will Hunt, integrante da mesma banda, além de contribuir com a bateria, é também o produtor dessa versão.

Vale ressaltar que foi justamente graças a Amy Lee, anos antes, que eu lembrei-me de ter assistido e de como gostava desse filme. Em entrevistas, ela sempre dizia que “The Nightmare Before Christmas” era seu filme favorito. Motivado pela minha curiosidade, resolvi pesquisar sobre tal longa-metragem. Qual não foi o meu espanto ao dar de cara com imagens de Jack Skellington, Sally, Oogie Boogie, Doctor Finklestein, Lock, Shock, Barrel etc. Ver aquelas imagens despertou imediatamente todas as minhas lembranças do filme que havia assistido tanto tempo atrás. Mas voltemos a falar apenas da canção, para não perder o foco.

Ao contrário de Fiona Apple, Amy Lee, sim, tem uma voz doce e aguda, apesar de ser capaz de torná-la grave em função de sua vontade. Porém quem a conhece – e conhece seu trabalho – sabe que a doçura de sua voz, em contraste com os pesados arranjos de guitarra, baixo e bateria com os quais divide espaço no palco é uma de suas marcas registradas. Nunca me esqueço do comentário duma antiga professora minha de português que dizia não importar o quão pesados fossem os arranjos do início de suas canções, tão logo ela começasse a cantar, suavizaria a música.

Mas no caso de Sally’s Song não há nenhum arranjo como os das canções do Evanescence. O piano e a harpa tratam de dar à música o tom desejado e, apesar de não contar com o som do violino (o que é uma pena), como a versão de Fiona, a interpretação de Amy Lee não deixa a desejar. Em 2007, ela havia começado a estudar harpa clássica, após ter sido presenteada com o instrumento por seu marido, Josh Hartzler. O resultado dos estudos pode ser conferido no vídeo abaixo:

É interessante notar como, apesar das significativas diferenças, todas as intérpretes de Sally’s Song têm muito em comum com a personagem do filme. Determinadas características das cantoras se assemelham (ou correspondem quase que totalmente) a determinadas características da boneca de pano. Sally é a encarnação do amor e da abnegação. A admiradora secreta disposta a se sacrificar pelo bem do amado. Donzela de expressão triste, vivendo quase que sob cárcere de seu criador, Doctor Finklestein, a quem está disposta a burlar para atingir seus objetivos de perdida apaixonada. Sua paixão, entretanto, não ofusca sua razão, através da qual apela a Jack pelo bom senso. Paradoxalmente, seu vasto conhecimento acerca de ervas e poções contrasta com seu estereótipo de garota americana recatada (exteriormente puritana e interiormente evoluída). Seu lado depressivo certamente lembra tanto Amy Lee quanto Fiona Apple, mas só a última tem a mesma cabeleira ruiva.

Enfim, espero que os leitores apreciem ambas as versões e sintam-se a vontade para expor suas opiniões acerca do que foi acima explicitado.

Antes de ir embora, gostaria apenas de informar que na edição japonesa do Nightmare Revisited, há uma faixa bônus. Trata-se duma outra versão de Sally’s Song, cantada em japonês por Scott Murphy, vocalista da banda norte-americana de pop punk, Allister. Mesmo cantada em japonês, por uma voz masculina e com um ritmo muito mais agitado, a canção não perde seu encanto:

Bom Proveito!

P.S O título do texto é um verso extraído da canção. Vernaculamente pode ser traduzido como “Será que um dia ficaremos juntos?

And does he notice

My feelings for him?

When will he see

How much he means to me?

Sally’s Song

It’s not about sex but about sexuality…

3 ago

Hoje resolvi fazer algo um pouco diferente. Pela primeira vez, vou me desligar um pouco do lado musical para fazer a minha primeira análise cinematográfica (se é que se pode chamar o que eu escrevo de análise). Apesar de gostar muito de cinema, nunca me senti confortável o suficiente para escrever sobre filmes e não saberia dizer por quê. Nem mesmo no meu blog anterior (Sceptical Poet) me atrevi a escrever sobre esse tema. Porém, recentemente, assisti uma produção que me impressionou bastante (pelos mais diversos motivos) e sobre a qual venho sentindo vontade de escrever desde então. Mas a insegurança me fez adiar a tentativa até o dia presente.

O filme do qual trato chama-se “Shortbus”, dirigido e escrito pelo norte-americano John Cameron Mitchell. Apesar de datar de 2006, é provável que pouquíssimos de vocês tenham o assistido, mesmo hoje em meados de 2010. Eu ousaria dizer que seu tema e o despudor que o caracteriza não o permitiram tornar-se tão popular, mas na minha humilde e leiga opinião, essa produção merecia ter faturado o Oscar, seja pelo enredo que mistura drama e comédia nas doses perfeitas, pelo realismo e por ser uma iniciativa ousada e original para a qual as mentes dos americanos protestantes não estavam preparadas.

Problemas afetivo-sexuais constituem-se no principal tema do filme. Nele, as histórias dos vários personagens se cruzam a todo tempo, mesmo em New York (the Big Apple), e é através dessa teia de relações que acontecem os episódios mais incomuns do longa. Shortbus, um salão descrito como sócio-artístico-sexual, é o local de encontro dos personagens, a partir do qual se desenrolam os acontecimentos mais importantes, as experiências mais relevantes e as auto-descobertas de indivíduos que sofrem dos mais diversos problemas de ordem psicológica (depressão, por exemplo) – como o ex-prostituto suicida James, que se joga numa piscina, com um saco plástico amarrado à cabeça, como a dominatrix Severin, que sofria de sérios problemas com a auto-estima, ou ainda como a terapeuta sexual Sofia, que jamais teve um orgasmo em toda a sua vida.

Shortbus foi um verdadeiro dedo na ferida dos conservadores, devido ao despudor e às cenas reais de sexo. Unido a isso, o ménage a trois entre os personagens gays Jamie, James e Ceth, fez com que o filme fosse taxado como pornográfico pela crítica. Mas é clara a intenção do diretor de desprover do sexo todo o cunho erótico que o caracteriza nas produções pornográficas, com o intuito de “remover a nuvem de excitação para revelar emoções e idéias que podem ter sido ocultados por ela”. O filme faz parte de uma tendência que vem se desenvolvendo nos últimos anos, de alguns diretores mesclarem cenas de sexo real em enredos de filmes cujo foco principal, entretanto, não é o sexo em si, mas na verdade qualquer tema presente em outros filmes, drama, comédia, ação, relações humanas, enfim.

Definitivamente você não se sentiria confortável assistindo esse filme com o seu pai, sua mãe, tia, tio, avó, avô etc. E provavelmente não permitiria que seu filho menor de idade o assistisse (apesar da minha forte convicção de que se ele for adolescente, já assistiu coisas muito mais explícitas). Mas apesar dos tabus e da capa proibitiva e imoral com o qual o sexo foi revestido pela religião e pelos dogmas ao longo dos séculos, Shortbus é uma história emocionante, sensível, original, tocante, dotada de atuações perfeitas e de diálogos bem elaborados. Não se surpreenda se por acaso se identificar com um dos personagens. Quem não tem problemas afetivo-sexuais que atire a primeira pedra.*

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“Sex, like music, is a universal language. We want to use it to introduce character, evoke emotion, propel the plot”.

John Cameron Mitchell