Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire)

28 dez

São exatamente 01h57min, do dia 28 de dezembro de 2010, eu estou morrendo de sono e me perguntando o que está me impelindo a molhar de minuto em minuto o rosto com água fria para escrever numa hora dessas. Eu acabei de assistir ao filme cujo nome usei para intitular este texto e, ao final, me ocorreram idéias literárias que, por medo de escaparem após uma noite de sono, materializarei hoje. Esta produção poderia perfeitamente estar na lista do post anterior, sobre filmes que me fizeram chorar ou sentir vontade, mas felizmente o assisti depois de ter escrito o texto em questão, o que me possibilita dedicar um espaço exclusivo para este longa no blog.

Meu dia começou nublado e prosseguiu numa tempestade silenciosa de tédio e falta de expectativas. Tentei escrever sobre outros temas, cheguei a iniciar um texto, mas não o terminei, planejei arrumar o meu quarto, mas a preguiça me venceu, tentei assistir um filme, que, até onde pude ver, me pareceu muito bom, mas pelo incômodo que me é ficar sentado tanto tempo, interrompi, e já planejava entregar-me ao sono quando me lembrei que esse filme seria exibido. Ingeri uma dose extra de café e o assisti do início ao fim, o que permitiu que meu dia tempestuoso terminasse numa explosão de cores. Os motivos? Bem, vejamos:

O filme é completamente rodado na Índia (ainda que a produção seja britânica), mas me rememora um formato literário tipicamente europeu, os contos de fada. Não há princesas, nem duendes, nem bruxas ou unicórnios. É um conto mais realista e existencialista, onde os personagens, mesmo crendo no destino, tecem suas próprias linhas, olham por si próprios e por seus amados com uma abnegação que deixaria qualquer cristão envergonhado. Vemos os três personagens centrais desde muito pequenos até o início da vida adulta. Jamal, seu irmão Salim e sua amiga Latika ficaram órfãos precocemente, aprenderam a se virar sozinhos nas ruas de Mumbai, foram explorados, arriscaram suas vidas, se separam, se reencontraram, se separaram de novo, reuniram-se novamente, e em cada novo encontro, procedido dum desencontro, os víamos maiores e com problemas de gente grande.

Por ocasião de uma separação, Jamal se inscreveu num famoso programa de TV, de modo que sua agora amada Latika o pudesse ver e saber onde se encontrava. Vemos o desenrolar final da trama, o ápice da tragédia e da comédia, e o modo como todas as experiências dos personagens contribuíram para que estivem naqueles determinados lugares, daquele determinado modo, como se, de verdade, tudo estivesse escrito. As circunstâncias poderiam ser outras, mas assim não haveria emoção. A cada cena, o espectador chora, ri, se emociona, sente raiva, apreensão, repugnância e todo um “ménage” de sentimentos e emoções humanas.

O fim, que não contarei, me causou essa automática associação da história com os contos de fada. Como terminam todos eles? “E viveram felizes para sempre”. Bem, se o filme realmente terminasse assim, seria errôneo o emprego do adjetivo “realista” para descrevê-lo. Mas o que há em comum entre este e aqueles é que dá para extrair da história indiana a mesma lição universal que é passada para as crianças pelas releituras e adaptações dos contos dos irmãos Wilhelm e Jacob Grimm. Você pode comer o pão que o diabo amassou durante quase toda a sua vida ou em partes isoladas dela, mas, cedo ou tarde, vai haver rios de chocolate e campos floridos pra você também – por alguns momentos, ao menos.

De qualquer forma, creio que todos gostem de ver vencedores por mérito, histórias – reais ou fictícias, de indivíduos que tiveram por merecer, que sofreram, perderam, apanharam, choraram, lutaram com unhas, dentes, ossos, fios de cabelo e todas as organelas das células do corpo, para finalmente ganharem seu lugar ao sol. Garanto que o clímax do filme faz toda a apreensão valer à pena, e é daqueles que nos faz sentir vingados por todos os nossos infortúnios, mesmo que se trate apenas de histórias de personagens inexistentes – ainda que pudesse ser perfeitamente o caso de qualquer trio de crianças órfãs da Índia.

Além de todos os elementos acima descritos, a trilha sonora do filme não deixa a desejar. Não é por acaso que a produção faturou inúmeras premiações, incluindo uma série de Oscars e Globos de Ouro. Ah, e não esqueçamos, não pode haver história na Índia sem ao menos uma dança, cena que você confere logo abaixo:

Bom Proveito!

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