Archive | janeiro, 2011

Música, Anime e Mitologia

17 jan

Animação ao estilo japonês e mitologia, duas coisas das quais eu gosto muitíssimo. Só algo de bom poderia resultar da combinação entre esses dois elementos. Se você assistia desenhos animados na década de 90 (independente da sua idade), provavelmente deve saber do que eu estou falando. Caso não saiba ou não se lembre, eu vou refrescar a sua memória:

♪♫♪♫

Pégasus, ajuda o teu cavaleiro.
Gelo, dragão e os guerreiros.
Cavaleiros do zodíaco.

Fênix, guia pro bem seu guerreiro.
Andrômeda e o seu cavaleiro.
Cavaleiros do zodíaco.

♪♫♪♫

Lembrou? Ótimo! Então continuemos.

Apesar de não me considerar um otaku, gosto muito de animes. E Cavaleiros do Zodíaco é, sem dúvida, um dos meus favoritos. Eu acompanho a história desde que o desenho era exibido através da péssima recepção de imagem da extinta TV Manchete. Mas não é sobre esta versão do desenho que me proponho a falar.

Se a união entre animação japonesa e mitologia resulta nas fabulosas produções de Masami Kurumada, o que obteríamos se a isso se acrescesse belíssimas composições clássicas? Os fãs mais assíduos do anime já devem ter desvendado o mistério. Refiro-me a uma das versões mais recentes da história dos Cavaleiros de Atena, intitulada “Saint Seiya: The Lost Canvas – Hades Mithology”. Não é só no nome que a história se diferencia. Os episódios narram a penúltima guerra santa entre Hades e Atena, ocorrida no século XVIII, e com personagens diferentes (obviamente) – apesar de serem caracteristicamente muito parecidos com os originais, em vista da pretensão de Kurumada em reforçar o princípio da reencarnação. Por conta de novos recursos tecnológicos, os traços são mais detalhados e realistas – que fique claro, porém, que não é ao idealizador original do anime que devemos a autoria desta versão. Os créditos pertencem a Shiori Teshirogi (isso mesmo, uma mulher).

Quero me concentrar, entretanto, apenas no que diz respeito à trilha sonora do anime, assinada por Kaoru Wada. O fator musical foi, sem dúvida, um dos elementos que mais me atraiu a essa nova versão. A cada personagem e espaço-tempo associa-se uma diferente composição, que, a meu ver, parece combinar perfeitamente com seu objeto. Pouquíssimas são as canções cantadas, mais especificamente, apenas três (a música de abertura – The Realm of Athena, a música de encerramento – Hana no Kusari, e a faixa de número 29 – Death Messenger). O restante conta unicamente com sons característicos de uma orquestra ou de um coral, dignos de qualquer grande compositor ou trilha de produção cinematográfica.

Talvez o fato de a maioria das faixas contar com a utilização do meu instrumento musical favorito, o violino (nada mais comum, em vista do fato de se tratarem de composições clássicas), tenha despertado em mim maior interesse. Mas o fator principal ao qual se deve a qualidade desta produção é o modo como foram combinados bem sucedidamente elementos que em certa dimensão se assemelham e em outra se distinguem. Isso já é característica constatada em Cavaleiros do Zodíaco. Mas em nível musical, de que forma isso se materializa?

Bem, além de animação ao estilo japonês, mitologia e composições clássicas, contra todas as expectativas, há algo mais que torna o anime tão magnífico – a presença de elementos góticos. Os elementos religiosos e sombrios se fazem presentes do começo ao fim, tanto arquitetonicamente falando (os domínios terrestres de Hades, por exemplo), quanto estilisticamente, – Pandora (foto) que o diga – ou, ainda, o que mais nos interessa, musicalmente. Óbvio que isso se deve ao enredo da trama, que se trata duma batalha contra o Imperador do Submundo. Assim como Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, mesclou os elementos clássicos pagãos aos cristãos, em The Lost Canvas, o mesmo ocorre. Por isso as mitologias grega e cristã se entrelaçam a todo tempo.

Como todo mundo sabe (ou ao menos deveria saber), o estilo gótico é predominantemente cristão. Depois de algum tempo foi-lhe acrescida essa conotação satânica, tão explorada pelas atuais bandas de heavy metal e hardcore, sem que, de qualquer forma, perdesse sua essência melancólica, pessimista e sobrenatural. Mas o elemento musical gótico que marca presença na produção japonesa nada tem a ver com esses arranjos pesados de rock ou com adoração demoníaca. Refiro-me pura e simplesmente às composições clássicas de raízes medievais que atingiram sua maturidade na Idade Moderna, como o canto a capela (cantochão) e o canto gregoriano, obras transbordantes de religiosidade.

Enfim, Saint Seiya: The Lost Canvas é uma fonte ilimitada de referências histórico-artísticas e mitológicas. É um manifesto ao bom gosto. Emocionante, dramático, trágico, vivaz, romântico, agitado, tétrico e tudo mais que lhe puder ser proporcionado por essa magnífica produção. Aos que quiserem assistir, aconselho prestar especial atenção às músicas. Contemplar traços bem delineados, movimentos realistas e uma trama envolvente torna-se muito mais agradável com uma bela e harmônica consecução de notas ao fundo.

Aos interessados, alguns links úteis, dentre os quais encontram-se disponibilizados a trilha sonora e os episódios para download, além dum breve vídeo de apresentação.

Ficha Técnica . Episódios (Download)* . Trilha Sonora (Download)**

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Bom Proveito!

*Os episódios não foram disponibilizados por mim, muito menos faço eu parte da organização do website que disponibiliza o anime para download. Dei-me ao trabalho pura e simplesmente de divulgar aqui o local que me foi indicado pela maioria das pesquisas.

**Assim como os episódios acima descritos, não é de minha responsabilidade o link disponibilizado para download da trilha sonora original do anime. O link foi disponibilizado pelo website brasileiro “Portal Saint Seiya“, na categoria “Trilhas Sonoras“, páginas também indicadas por buscas virtuais.