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A Cowboy Needs a Horse

24 out

Quem não se lembra dos desenhos mais antigos da Disney Records que marcaram a infância de tantos que hoje já são adultos, pais e mães? Os episódios de Mickey e Donald eram e ainda são exibidos no Brasil por uma ou outra emissora desde a década de 60. Quem não presenciou um dos acessos de ira do Pato Donald ou uma das maluquices do Pateta e as confusões nas quais o Mickey, junto com seu inseparável cão, Pluto, se metiam?

Nos anos 90, período de minha infância, eu me gabo de ter assistido todos os episódios exibidos na TV, os quais eu suspeito datarem da década de 50 e posteriores (apesar da ótima qualidade de som e imagem) – fato que abstraio das vestes dos personagens figurantes, dos padrões arquitetônicos das casas, do formato do televisor etc.

Dentre todos os episódios exibidos, porém, alguns deles não eram estrelados pelos personagens habituais. Havia uma produção que eu muito gosto, na qual pus os olhos pela primeira vez lá pelos meus 4 ou 5 anos de  idade e que só muito recentemente tive a felicidade de encontrar na rede. Data do ano de 1956 (nem minha mãe era nascida ainda). Provavelmente as crianças de hoje não apreciariam nem dariam muita atenção à história do menino Johnny, que vivia numa grande cidade e toda noite sonhava que era um cowboy benfeitor.

A animação chama-se “A Cowboy Needs a Horse” (Um Cowboy Precisa de um Cavalo) e os créditos pela direção do “cartoon” pertencem a Bill Justice, que soube combinar perfeitamente os elementos componentes, de modo a formar essa obra única que remete à certa melancolia, nos cria um repentino desejo de aventuras não vividas e saudades dos inocentes anos iniciais de nossas vidas.

Cada parte é imprescindível para a perfeição do todo. Os traços tão característicos do estilo da época, as cores, as formas e até os brinquedos espalhados pelo chão do quarto do menino evocam em nós certo efeito nostálgico. Mas nenhum componente, nenhum elemento, nenhuma parte supera em nostalgia a música, a canção homônima de autoria de Paul Mason Howard e Billy Mills, tão “old-fashioned”, com as vozes em uníssono e sonoridade que nos parece advinda de um disco de vinil executado em uma daquelas antigas vitrolas. Lembra mesmo uma canção de ninar, mas a do tipo que você faz questão de ficar acordado para ouvir até o fim.

Tudo isso exposto, imaginem a emoção quando finalmente encontro algo que tenho procurado há anos. Eu não cheguei a pular de alegria, mas fiquei bastante inquieto. Repeti inúmeras vezes o capítulo e o mostrei para alguns familiares que, não surpreendentemente, também se lembravam nitidamente do episódio.

O desenho foi compilado em várias coletâneas, dentre as quais estão “Cartoon Classics: First Series (Volume 12) – Disney’s Tall Tales”; o LD lançado no Japão, “Donald Duck Goes West”; nos Estados Unidos, dois DVDs, “Disney Treasures: Disney Raritiers – Celebrated Shorts, 1920s-1960s” e “It’s a Small World of Fun: Volume 1”. Foi ainda lançado junto com uma série de vídeos musicais da Disney, em março de 1987, sob o título “Disney Sing Along Songs: Heigh-Ho”.

Sem mais delongas, deixarei que os leitores assistam e tirem suas próprias conclusões. Disponibilizarei também a ficha técnica e a letra da  canção.

Bom Proveito!

– Ficha Técnica

***

 

A Cowboy Needs a Horse

Ridin’, ridin’ along…

Oh, a cowboy needs a horse, needs a horse, needs a horse
And he’s gotta have a rope, have a rope, have a rope
And he oughta’ have a song, have a song, have a song
If he wants to keep ridin’

Now a cowboy needs a hat, needs a hat, needs a hat
And a pair of fancy boots, fancy boots, fancy boots
And a set of shiny spurs, shiny spurs, shiny spurs
If he wants to keep ridin’

Oh, the fence is long, and the sun is hot
And the good Lord knows that a cowboy’s gotta keep
Ridin’, ridin’ along

So he gets himself a horse, and a rope, and a song
And he finds himself a hat, fancy boots, shiny spurs
And there’s nothing more he needs, or can have, or can get
If he wants to keep ridin’, ridin’ along

Spurs, shiny spurs
Boots, fancy boots
Sings a western song
Ro-oh-oh-ope
And a horse
If he wants to keep ridin’, ridin’ along…

ve a rope, have a rope, have a rope 

And he oughta’ have a song, have a song, have a song

If he wants to keep ridin’

 

Now a cowboy needs a hat, needs a hat, needs a hat

And a pair of fancy boots, fancy boots, fancy boots

And a set of shiny spurs, shiny spurs, shiny spurs

If he wants to keep ridin’

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oh, the fence is long, and the sun is hot

And the good Lord knows that a cowboy’s gotta keep

Ridin’, ridin’ along

 

So he gets himself a horse, and a rope, and a song

And he finds himself a hat, fancy boots, shiny spurs

And there’s nothing more he needs, or can have, or can get

If he wants to keep ridin’, ridin’ along

 

Spurs, shiny spurs

Boots, fancy boots

Sings a western song

Ro-oh-oh-ope

And a horse

If he wants to keep ridin’, ridin’ along…

One woman, many voices.

5 set

Até hoje me pergunto como passei quase 20 anos da minha vida (pois é, faço 20 esse mês) sem nunca ter ouvido falar desse cúmulo de talento peruano chamado Yma Sumac. Tudo bem, eu concordo que nós, brasileiros, não nos importamos muito com a produção artística dos nossos vizinhos sul-americanos – com pouquíssimas exceções (e eu não estou falando de Quase Anjos ou Isa TKM). Mas o curioso é que a cantora sobre quem discorro é conhecida mundialmente. Nos Estados Unidos, inclusive (um país que não atribui lá muitos méritos ao povo latino), Zoila Augusta Emperatriz Chávarri del Castillo (nome de batismo da beldade) era ovacionada. O tipo de artista que estrelava musicais da Broadway e distribuía autógrafos.

Ultimamente tenho notado que a maioria dos cantores de quem passo a gostar, me surge da forma mais singela e ordinária possível. Novamente devo ao Beto os créditos por ter me apresentado a artista da vez. Estávamos a conversar no MSN e, em meio à conversa, ele perguntou se poderia me enviar uma música da qual muito gostava. Ao meu sinal de aprovação, envia-me a canção Gopher, do álbum “Mambo!”, de 1954. A mim, um indivíduo que entende muito pouco do assunto, a música soou como uma mistura de mambo (jura?) com leves pitadas de chá-chá-chá, agraciadas com a lírica voz da “Xtabay”.

Para quem não sabe, Xtabay é uma personagem mitológica da cultura Inca. Existem duas histórias envolvendo  esta mesma figura. Na primeira, tratava-se duma mulher muito bela que, por conta de seus hábitos nada convencionais e mal vistos pela tribo, passou a ser tachada de prostituta (algumas versões afirmam que se tratava dum demônio). De tanto ser humilhada, se isolou. Passados alguns dias, um agradável odor espalhou-se pela vila. Os moradores descobriram que o cheiro vinha do interior da cabana da infeliz, onde havia morrido sozinha. Alguns indivíduos, apiedados, sepultaram-na. No dia seguinte, ao passarem em frente a sua sepultura, notaram que belas flores com um suave perfume haviam brotado sobre o local no qual tinha sido enterrada. Tais flores foram batizadas de Xtabentún (esta espécie só existe na América Latina, do México ao Chile).

Na segunda versão, que, aparentente, foi a que inspirou Yma a batizar seu primeiro álbum de “Voice of the Xtabay” (Nova Iorque, 1950), a personagem dizia respeito a uma bela, jovem e virgem garota inca, que se apaixona por um príncipe asteca. Tal amor era proibido, visto que, além de serem de tribos diferentes, ela era uma humilde aldeã e o rapaz era um nobre, um príncipe. Incapaz de conter os sentimentos em seu coração, Xtabay os canta para as montanhas, o vento e para quem mais pudesse ouvir. Sua voz era tão encantadora e penetrante que, contra suas expectativas, acabou alcançando e mantando o distante príncipe.

Apesar do nome em inglês, as canções do primeiro álbum são cantadas na língua do antigo povo nativo da região de origem de Zoila. E por falar nisso, em meio ao tremendo sucesso que alcançou na metade do século XX, circulava o boato de que ela era uma princesa inca, descendente direta do imperador Atahualpa. Vale ressaltar que Sumac sempre se demonstrou bastante ligada à sua cultura, fato que se evidencia pelas vestes que usava, pelo idioma que elegia e pelo estilo musical que se propunha a cantar.

Talvez a beleza da latina incitasse nas mentes dos espectadores tais histórias acerca de sua origem e acabasse por gerar diferentes versões para um mesmo fato nas biografias a ela dedicadas ao longo de sua vida. Aliás, bela, assim como talentosa, são adjetivos que caracterizavam (e ainda caracterizam, nas lembranças e fotos) perfeitamente a cantora.

Yma encarnava o papel de uma diva. Estourou no auge de sua juventude e beleza, gravou inúmeros discos, viajou todo o mundo fazendo concertos, estrelou um musical, quatro filmes, recebeu premiações, apareceu no programa “Late Night with David Letterman”, foi homenageada por outros artistas, é uma das principais expoentes do estilo musical “exótica”, e teve até suas canções incluídas em trilhas sonoras de filmes e comerciais. Personalidade constante em revistas e jornais, a peruana era representada em fotografias no estilo tão característico da época, com decotados vestidos cravejados de brilhantes, cabeleira lustrosa, além das jóias que, como se dizia naquele tempo, eram as melhores amigas das mulheres.

Daí o pesar que normalmente se sente ao constatar o efeito que o tempo tem sobre as pessoas. Com o passar das décadas, a cantora foi deixando de contar com as curvas sinuosas de seu corpo e com os joviais traços de seu rosto. Mas verdade seja dita, conservou sua beleza por muitos anos (apesar de nunca ter usado seu corpo como atrativo). E ainda que a juventude lhe tenha inevitavelmente escapado pelos dedos, o talento, porém, nunca a deixou. Sua atividade musical prosseguiu até a década de 90.

Yma Sumac faleceu ao dia 1 de novembro de 2008, em Los Angeles, aos 86 anos, de câncer colorretal. Seu corpo foi enterrado no “Hollywood Forever Cemitery”, em Hollywood, Califórnia, na seção “Sanctuary of Memories”. A lembrança e a obra, porém, jamais perecerão.

Aos interessados, logo abaixo alguns links úteis:

Site Oficial . Fã Clube . Biografia (Inglês) . Biografia (Espanhol) . Biografia (Português) . Comunidade (Orkut) . Grupo (Facebook) . Download (4 Álbuns)

O vídeo abaixo é um trecho do filme “Secret of the Incas” (O Segredo dos Incas), do qual participou em 1954.  Muitos de vocês talvez não gostem dos graves emitidos ao início do vídeo, mas tentem assistir até o fim, e vejam como, maestricamente, ela muda de barítono para soprano. Após assistirem ao vídeo, vocês entenderão o motivo pelo qual o texto foi intitulado “Uma mulher, muitas vozes”.


Bom Proveito!

P.S Segundo as fontes nas quais me baseei para escrever este texto, uanimemente, a canção “Chunco – The Forest Creatures” é a que mais exemplifica a extensão vocal da cantora.