Leeloo e Plavalaguna

10 dez

Primeiramente, gostaria de me desculpar pela demora em atualizar o blog. Ultimamente, as circunstâncias não estavam muito favoráveis ao exercício da escrita, a não ser, é claro, quando se tratasse de trabalhos acadêmicos, em relação aos quais não há escolha. Aliás, escolha até há, mas as conseqüências fazem com que a opção negativa deixe de valer à pena. Reprovação não é algo legal. Quem faz faculdade sabe o quão estressante um final de semestre pode ser. Mas, felizmente, estou quase de férias, e poderei dedicar mais atenção ao blog que, segundo o Bruno, estava entregue às moscas (risos).

Não é sobre faculdade, entretanto, que quero falar. Ninguém sabe, mas eu tenho uma lista de temas sobre os quais pretendo discorrer aqui. Eu planejava segui-la, mas lamentavelmente não consegui desenvolver nenhum dos temas que, a priori, tinha vontade. Nem os conselhos de auto-ajuda literários tão bem expostos a partir da obra de Rainer Maria Rilke (leia-o aqui), por meu já citado amigo Bruno Amaral, me deram jeito.

Decidi, então, ignorar provisoriamente a minha lista e escrever sobre um tema aleatório, mas que, obviamente, não fugisse do meu gosto. Ontem acessei minha conta no Facebook e vi que o Beto havia postado um vídeo que seria um interessantíssimo tema para o meu atual post. Compartilho-o agora, com vocês.

Duas coisas me motivam a assistir incansavelmente a reprise do filme O Quinto Elemento (The Fifth Element), de 1997. Primeiro, Milla Jovovich, uma das atrizes mais talentosas, bonitas e radicais cujo trabalho eu tive a felicidade de apreciar. Radical é, sem dúvida, uma das características principais da musa ucraniana, que apesar de ter sido primeiramente notada no filme de romance e aventura datado de 1991, De Volta à Lagoa Azul (Return to the Blue Lagoon), como Lili Hargrave, ficou mundialmente conhecida pelos inúmeros filmes de ação que estrelou (Resident Evil, por exemplo) e continua estrelando até a atualidade.

O segundo motivo é a cena na qual a personagem alienígena azul que canta ópera, Diva Plavalaguna, interpretada pela atriz e produtora francesa Maïwenn Le Besco, entoa a canção Il Dolce Suono, trecho da ópera Lucia Di Lammermoor, do compositor italiano Gaetano Donizeti. Tal canção já foi também material dum trabalho do contra tenor letão Vitas, em parceria com a dupla de violinistas russas Vibracia, ambos temas anteriores de textos do blog.

Na voz da alienígena, a canção começa no ritmo tradicional, calmo, suave. A cena da apresentação é contextualizada com uma invasão da nave por parte de outros ETs malignos que querem roubar as quatros pedras místicas que podem salvar a Terra da destruição – uma das quais se encontra sob a posse da cantora. Ao passo que a canção vai ficando mais trágica, mais trágicos tornam-se também os acontecimentos. A nave torna-se um verdadeiro campo de batalha, no qual Leeloo (Milla Jovovich), sozinha, tenta deter os Mangalores (os aliens do mal). Diva deixa, então, a canção original e passa a emitir seus graves e agudos num ritmo mais animado, pop, para dar vida a outra música, “The Diva Dance Song”. O ritmo serve de plano de fundo para a temporária vitória de Leeloo sobre os vilões. As notas vocais terminam num agudo elevado, seguido dum soco duplo da personagem de Jovovich na face dos malvados e num movimento dinâmico dos braços de Diva (na qual ela os abre, formando uma cruz com o próprio corpo), seguido pelo mesmo movimento de Leeloo.

Os créditos pela perfeita atuação, pelos movimentos harmônicos, pelas dramáticas expressões e pelo êxtase tão bem exprimido pela personagem Plavalaguna são de Maïwenn Le Besco. A voz, porém, não pertence à atriz francesa. Parcela dos aplausos deve ser dedicada à soprano albanesa Inva Mulla Tchako, a voz por trás da gigante azul. Em nível de informação, as notas finais de “The Diva Dance Song” foram computadorizadas, visto que, obviamente, nenhum ser humano seria capaz de emitir notas naquela velocidade (quem sabe, talvez, um alienígena, mas nós ainda não atingimos essa escala da evolução – risos).

O resultado da perfeita combinação entre a interpretação de Maïwenn e da voz de Inva, juntamente com a atuação de Milla Jovovich, vocês conferem no video abaixo.


Bom Proveito!

Xenofobia

11 nov

Sou só eu ou mais alguém ficou abismado com os recentes casos de xenofobia contra nordestinos? Se você ainda não ouviu falar sobre Mayara Petruso e sua trupe de preconceituosos, intolerantes e racistas, é apenas uma questão de tempo até que ouça. Essa adjetivação parece um tanto redundante, mas a repetição ajuda a acentuar o caráter negativo com o qual quero encharcar esses indivíduos – ainda que eles mesmos tratem de se banhar com a pior fama possível, a de ignorantes. Não a ignorância inocente da qual fazemos uso para designar aqueles que tiveram pouca instrução, que nunca pisaram num solo escolar, ou a quem falta bons modos; muito menos a ignorância simulada por Sócrates, o maior filósofo de Atenas, com o objetivo de impelir seus interlocutores a darem a luz suas próprias idéias. Refiro-me à ignorância nociva e imperdoável que se manifesta em generalizações e idéias infundadas, em alienação materializada, preconceitos, discriminação, violência e, por que não, morte.

O que mais me irrita é a inércia alheia. Será que as pessoas acham que crime é apenas matar, roubar e estuprar? É o que parece, pois só nesses casos se vê uma agitação moral nos espectadores a ponto de tomarem providências ou, na menor das hipóteses, exporem suas opiniões. A meu ver, crimes contra a honra, como nos casos de preconceito em geral, calúnia, difamação e injúria, são tão danosos a quem os sofre quanto um ferimento físico e às vezes até muito mais grave que uma lesão corporal, que no mais das vezes cicatriza e desaparece. Ser alvo de ofensas, porém, é estar fadado a guardar uma mácula na memória e na alma (seja lá qual for o seu entendimento acerca deste substantivo) para sempre. Costuma dizer minha mãe que palavras doem mais que pancadas.

E, como se já não bastasse o pouco caso que fazem da situação, aqueles que optam pela inércia ainda nos aconselham a ignorar o fato. Da minha parte, me recuso a ignorar e sou dos que crêem no antigo ditado segundo o qual “quem cala, consente”. Dar as costas simplesmente não faz parte da minha natureza, muito menos nesse caso específico. Os motivos? Primeiro, porque eu sou nordestino e me senti particularmente ofendido; segundo, porque se há algo que sou incapaz de tolerar é preconceito; e terceiro, porque eu optei por cursar Direito não pura e simplesmente em busca de status e dinheiro ou porque meus pais quiseram. Se fosse para vendar os olhos numa situação como estas, eu me pergunto que tipo de profissional eu seria. Provavelmente muito parecido com a garota Petruso, que (infelizmente) vai se tornar uma advogada algum dia.

É válido lembrar aos indiferentes que a única coisa que distingue a estudante paulista do ex-ditador alemão Adolf Hitler é o fato de que ela não pode, como bem queria, afogar todos os nordestinos do mesmo modo que o líder nazista exterminou os judeus, negros e homossexuais. Pois no que diz respeito à postura, ambos são muito parecidos. Eles pregam o ódio, a intolerância e a superioridade de um grupo sobre outro. Diante de uma situação como esta, passo a refletir sobre a pergunta feita por Ana Cláudia Gusmão, excelentíssima professora de História do Direito da Universidade Católica do Salvador (UCSal), quanto a possibilidade de em pleno século XXI se desenvolver um sistema ditatorial tão forte quanto os que vigoraram no século anterior.

Verdade seja dita, Mayara não foi a única a se manifestar preconceituosamente contra os habitantes do Norte-Nordeste. Mas foi ela a primeira a publicar um comentário infeliz – “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado”. – que acabou gerando uma onda de outras manifestações, logo após a notícia da vitória da candidata à presidência Dilma Rousseff sobre o candidato tucano José Serra. Algumas até piores, pra ser sincero, mas a maioria de autoria de adolescentes sem opinião própria que acreditam que postura de rebelde sem causa é “legal” e que fazem qualquer coisa para aparecer e para se sentir pertencente a um grupo qualquer (mais ou menos o que Felipe Neto consideraria um “troll”). Os que já passaram dos 20 e pensam da mesma forma, nada mais são que pós-adolescentes frustrados.

Eu não vou falar do quão irracional chega a ser a crença de que uma única região definiu o rumo das eleições; e os números estão aí para mostrar que mesmo que o Nordeste, hipoteticamente, não participasse do processo eleitoral, a candidata do PT ainda seria eleita com mais de 1 milhão de votos de vantagem. Não é meu objetivo também falar da tremenda falta de noções históricas desses indivíduos, que ignoram o fato de que o Brasil nasceu no Nordeste e que por muito tempo daqui extraía suas principais riquezas. Não pretendo também fazer uma análise sócio-antropológica da elite paulista e grupo ao qual pertence Mayara Petruso e Cia, muito menos tenho a intenção de avaliar seu histórico familiar com o intuito de defender a tese de que são comuns, entre eles, manifestações desse tipo. E se fosse do meu interesse discorrer dos motivos pelos quais o Nordeste é tão estigmatizado e dele é vendida essa imagem de fome e miséria, eu certamente citaria a brilhante matéria do jornalista Raphael Douglas, que soube desenvolver maestricamente uma crítica contra os padrões negativos que a mídia e a política tratam de propagar.

Meu objetivo é fazer o papel da mosca chata que tenta assiduamente pousar na sopa da população, de modo a causar o mínimo de movimento por parte desta. “O que podemos fazer?”, perguntam. Primeiro de tudo, dar atenção aos acontecimentos fatídicos e não banalizar esse tipo de atitude, pois a partir do momento em que se dá ao crime caráter tão ordinário, seu combate deixa de ser prioridade. Ainda está fresco na memória de quem acompanha telejornais o homicídio do tecelão Ailton Fernandes dos Santos, de 45 anos, que foi baleado na frente da esposa e dos 5 filhos (um dos quais também foi atingido por uma bala no braço), por motivo fútil. O advogado do infrator, em entrevista, após tentar justificar a atitude de seu cliente, termina por dizer que “esse tipo de coisa acontece”, afirmação que dispensa comentários.

Em segundo lugar, refletir um pouco, parar pra pensar e evitar precipitações de modo a não incorrer no erro de se igualar àqueles a quem se dirige a crítica. Quem apela para comentários odiosos, quem incita a violência ou parte para a agressão converte-se de vítima em infrator, perde a razão e a legitimidade do discurso, fica impossibilitado de exercer juízo de valor e todos os créditos que por ventura venha a ter tornam-se desmerecidos. O ideal é que façamos uso dos meios legais, por mais lentos que possam ser. E a despeito do que muitos ainda pensam, o Direito da Informática tem dado passos significativos. Algumas capitais brasileiras já possuem delegacias especializadas em crimes virtuais e contamos, ainda, com o trabalho de ONGs que tratam de recolher denúncias e encaminhar para os órgãos responsáveis.

Meios de agir, sem dúvida, não faltam. Falta, talvez, interesse e vontade. Duvido que na nossa rotina diária de trivialidades não haja tempo ou não sobre energia para exercer um pouco de cidadania. Graças a cidadãos que encararam possibilidades como obrigações e denunciaram ao SaferNet os inúmeros casos de racismo e xenofobia na rede social Twitter, o Ministério Público de São Paulo poderá apurar os casos de todos os 1.037 xenófobos listados por aquela ONG e enviados à entidade. Às vezes tudo que precisamos fazer para por a máquina em funcionamento é sair da zona de conforto.

Quanto a Mayara Petruso, a OAB-PE tratou de impetrar uma ação contra a paulista, que responderá por racismo e incitação ao crime. A menina, logo após ter percebido a tamanha repercussão de seus atos impensados, logo excluiu todas as contas virtuais (twitter, orkut, facebook) e deixou de freqüentar a faculdade. O escritório onde Mayara estagiava não tardou a deixar claro que ela não mais pertence ao corpo daquela instituição.

Apesar de não ter sido veiculado por nenhuma emissora de TV, o caso foi amplamente divulgado na rede. A internet é como uma pista de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que causa a ilusão do anonimato, submete-nos à veloz e livre troca de informações que circulam por todo o mundo através dos cabos de fibra óptica. E aí está a grande oportunidade. Há quem se deixe enganar pela miragem e pela crença do incognoscível, alienando-se e praticando todos os tipos de atos detestáveis e repreensíveis sob a suposta proteção de milhões e milhões de bits de barreira, mas também há, por outro lado, quem esteja disposto a identificá-los, contestá-los, denunciá-los e, por fim, penalizá-los. Neste ponto eu faço minhas as palavras de Thiago Sacramento, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), segundo quem “o mínimo que podemos fazer é expô-los”; não simplesmente com o intuito de constrangê-los e submetê-los a uma simbólica humilhação pública, como fazem os programas sensacionalistas e antiéticos que infestam as mesmas emissoras que se recusam a exibir o caso Mayara, mas publicizar os fatos de modo que a maior parte da população saiba e exercite seu direito e, atrevo-me a dizer, dever de indignar-se. Assim, a pressão que o povo exerceria sobre o poder estatal contribuiria para a diminuição quantitativa dos casos de impunidade e, talvez, servisse como forma de coação psicológica para inibir a prática do crime.  Identifico aí a tênue linha que separa a inércia e a indiferença das inúmeras possibilidades de ação. Agir é o primeiro passo. Assim, pouco a pouco, todos perceberão que a internet não é mais “terra de ninguém”.

Abaixo, um vídeo triste, mas que, como diz Renato Rovai, editor da Revista Fórum, merece ser visto.

* * *


A Cowboy Needs a Horse

24 out

Quem não se lembra dos desenhos mais antigos da Disney Records que marcaram a infância de tantos que hoje já são adultos, pais e mães? Os episódios de Mickey e Donald eram e ainda são exibidos no Brasil por uma ou outra emissora desde a década de 60. Quem não presenciou um dos acessos de ira do Pato Donald ou uma das maluquices do Pateta e as confusões nas quais o Mickey, junto com seu inseparável cão, Pluto, se metiam?

Nos anos 90, período de minha infância, eu me gabo de ter assistido todos os episódios exibidos na TV, os quais eu suspeito datarem da década de 50 e posteriores (apesar da ótima qualidade de som e imagem) – fato que abstraio das vestes dos personagens figurantes, dos padrões arquitetônicos das casas, do formato do televisor etc.

Dentre todos os episódios exibidos, porém, alguns deles não eram estrelados pelos personagens habituais. Havia uma produção que eu muito gosto, na qual pus os olhos pela primeira vez lá pelos meus 4 ou 5 anos de  idade e que só muito recentemente tive a felicidade de encontrar na rede. Data do ano de 1956 (nem minha mãe era nascida ainda). Provavelmente as crianças de hoje não apreciariam nem dariam muita atenção à história do menino Johnny, que vivia numa grande cidade e toda noite sonhava que era um cowboy benfeitor.

A animação chama-se “A Cowboy Needs a Horse” (Um Cowboy Precisa de um Cavalo) e os créditos pela direção do “cartoon” pertencem a Bill Justice, que soube combinar perfeitamente os elementos componentes, de modo a formar essa obra única que remete à certa melancolia, nos cria um repentino desejo de aventuras não vividas e saudades dos inocentes anos iniciais de nossas vidas.

Cada parte é imprescindível para a perfeição do todo. Os traços tão característicos do estilo da época, as cores, as formas e até os brinquedos espalhados pelo chão do quarto do menino evocam em nós certo efeito nostálgico. Mas nenhum componente, nenhum elemento, nenhuma parte supera em nostalgia a música, a canção homônima de autoria de Paul Mason Howard e Billy Mills, tão “old-fashioned”, com as vozes em uníssono e sonoridade que nos parece advinda de um disco de vinil executado em uma daquelas antigas vitrolas. Lembra mesmo uma canção de ninar, mas a do tipo que você faz questão de ficar acordado para ouvir até o fim.

Tudo isso exposto, imaginem a emoção quando finalmente encontro algo que tenho procurado há anos. Eu não cheguei a pular de alegria, mas fiquei bastante inquieto. Repeti inúmeras vezes o capítulo e o mostrei para alguns familiares que, não surpreendentemente, também se lembravam nitidamente do episódio.

O desenho foi compilado em várias coletâneas, dentre as quais estão “Cartoon Classics: First Series (Volume 12) – Disney’s Tall Tales”; o LD lançado no Japão, “Donald Duck Goes West”; nos Estados Unidos, dois DVDs, “Disney Treasures: Disney Raritiers – Celebrated Shorts, 1920s-1960s” e “It’s a Small World of Fun: Volume 1”. Foi ainda lançado junto com uma série de vídeos musicais da Disney, em março de 1987, sob o título “Disney Sing Along Songs: Heigh-Ho”.

Sem mais delongas, deixarei que os leitores assistam e tirem suas próprias conclusões. Disponibilizarei também a ficha técnica e a letra da  canção.

Bom Proveito!

– Ficha Técnica

***

 

A Cowboy Needs a Horse

Ridin’, ridin’ along…

Oh, a cowboy needs a horse, needs a horse, needs a horse
And he’s gotta have a rope, have a rope, have a rope
And he oughta’ have a song, have a song, have a song
If he wants to keep ridin’

Now a cowboy needs a hat, needs a hat, needs a hat
And a pair of fancy boots, fancy boots, fancy boots
And a set of shiny spurs, shiny spurs, shiny spurs
If he wants to keep ridin’

Oh, the fence is long, and the sun is hot
And the good Lord knows that a cowboy’s gotta keep
Ridin’, ridin’ along

So he gets himself a horse, and a rope, and a song
And he finds himself a hat, fancy boots, shiny spurs
And there’s nothing more he needs, or can have, or can get
If he wants to keep ridin’, ridin’ along

Spurs, shiny spurs
Boots, fancy boots
Sings a western song
Ro-oh-oh-ope
And a horse
If he wants to keep ridin’, ridin’ along…

ve a rope, have a rope, have a rope 

And he oughta’ have a song, have a song, have a song

If he wants to keep ridin’

 

Now a cowboy needs a hat, needs a hat, needs a hat

And a pair of fancy boots, fancy boots, fancy boots

And a set of shiny spurs, shiny spurs, shiny spurs

If he wants to keep ridin’

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oh, the fence is long, and the sun is hot

And the good Lord knows that a cowboy’s gotta keep

Ridin’, ridin’ along

 

So he gets himself a horse, and a rope, and a song

And he finds himself a hat, fancy boots, shiny spurs

And there’s nothing more he needs, or can have, or can get

If he wants to keep ridin’, ridin’ along

 

Spurs, shiny spurs

Boots, fancy boots

Sings a western song

Ro-oh-oh-ope

And a horse

If he wants to keep ridin’, ridin’ along…

Vibracia

14 out

Pode ser apenas impressão minha, mas tenho notado que grande parte das cantoras do leste europeu tem uma forte tendência a mesclar sensualidade com música. Alguns vão dizer, sem dúvida, que isso é prática comum e de longa data aqui no ocidente, visto que as cantoras “pop” costumam fazer uso de elementos sensuais, como danças e gestos provocantes, letras com duplo sentido (e às vezes com um único sentido mesmo) e roupas que denotam curvas e formas nitidamente. Porém, verdade seja dita, a cultura pop atual pressupõe tais atributos e elementos sensuais ou sexualmente sugestivos – fato que se evidencia diante da constatação de que algumas cantoras, também do leste europeu, mas que se propõem a cantar pop, também assimilam tais características, como a dupla russa t.A.T.u. e a cantora ucraniana Svetlana Loboda.

É com base nisso que se contrasta uma tênue diferença entre as não referidas cantoras do leste europeu e as divas do pop ocidental. Pra começo de conversa, as leste-européias às quais me refiro não cantam pop (algumas nem cantam, na verdade) e, por isso, não podem usar o tipo musical como justificativa para o estilo performático do qual fazem uso. Em segundo lugar, apesar de darem utilidade à sensualidade (que nós, ocidentais, lhes atribuímos de tal forma que passamos a acreditar ser intrínseca àquele povo), elas não fazem dos seus dotes femininos, como uma pequena – e talvez nem tão pequena assim – parcela das artistas pop internacionais, algo que venha a suprimir o fator principal, ou seja, o talento musical. Esse fato é constatável no trabalho de uma dupla de violinistas russas, pouco conhecidas mundialmente, mas que em seu país de origem lota platéias e é ovacionada. Refiro-me às beldades chamadas Elena Kondrashova-Terentieva e Victoria Shumsky, componentes da dupla Vibracia (Вибрация, em caracteres cirílicos; Vibração, em português).

Apesar da árdua pesquisa que empreendi, foi muito difícil achar qualquer material a respeito da dupla, sobre a origem do grupo, como e quando suas integrantes se conheceram, se têm qualquer graduação no campo musical etc. A única fonte que encontrei foi o site oficial (que, diga-se de passagem, está completamente em russo). Porém, eu o transliterei através da ferramenta de tradução do Google e obtive as escassas informações que, espero, sejam o suficiente para despertar nos leitores curiosidade acerca dessas tão talentosas quanto belas artistas.

À primeira vista, a impressão que se tem é que violinos foram dados a duas modelos de “lingerie”, e estas foram postas num palco, diante de um público imenso, a quem deveriam agradar. Contra todas as expectativas, elas não dançam, não fazem gestos sexualmente sugestivos e parecem pouco preocupadas com qualquer coisa que não diga respeito à extração de perfeitas notas de seus instrumentos. A admiração pelos belos corpos das musas cede espaço ao encanto proveniente da maéstrica execução de seus violinos. Tocam desde baladas eletrônicas a obras de grande complexidade, cuja autoria pertence a compositores clássicos de grande renome – Vivaldi, por exemplo. As conheci, inclusive, através dum trabalho feito em parceria com o contra tenor letão Vitas, – a quem já dediquei um post neste blog – no videoclipe da canção Il Dolce Suono, trecho da ópera Lucia di Lammermoor, do compositor italiano Gaetano Donizetti. Mas, como convencional não é um adjetivo aplicável a essas artistas, tiveram elas a iniciativa de mesclar as composições clássicas e as percussões eletrônicas, ainda que estas últimas não prevalecessem sobre o som das cordas.

Para os admiradores mais conservadores da música clássica, porém, é inadmissível “macular” a perfeição da composição original com sons modernos que nada têm a ver com o classicismo musical. Tal opinião, entretanto, não é compartilhada com aqueles que aplaudem freneticamente as performances da dupla nem com todos que têm a música clássica como trabalho ou hobby. Alguns até elogiam a iniciativa de criar versões modernas para estas composições e a maestria com que unem elementos de espécies tão distintas.

À segunda vista, somos capazes de notar como os violinos parecem funcionar como uma extensão de seus corpos – requisito fundamental para ser considerado um bom musicista segundo os professores de música. Deixamos de enxergá-las como modelos de “lingerie” a quem foram dados violinos e passamos a vê-las como violinistas que foram vestidas como modelos de “underwear” feminina.

Sem mais delongas, apresento-vos abaixo o site oficial seguido de um vídeo da dupla executando um trecho de “As Quatro Estações” (Vivaldi).

– Site Oficial –

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Bom Proveito!

One woman, many voices.

5 set

Até hoje me pergunto como passei quase 20 anos da minha vida (pois é, faço 20 esse mês) sem nunca ter ouvido falar desse cúmulo de talento peruano chamado Yma Sumac. Tudo bem, eu concordo que nós, brasileiros, não nos importamos muito com a produção artística dos nossos vizinhos sul-americanos – com pouquíssimas exceções (e eu não estou falando de Quase Anjos ou Isa TKM). Mas o curioso é que a cantora sobre quem discorro é conhecida mundialmente. Nos Estados Unidos, inclusive (um país que não atribui lá muitos méritos ao povo latino), Zoila Augusta Emperatriz Chávarri del Castillo (nome de batismo da beldade) era ovacionada. O tipo de artista que estrelava musicais da Broadway e distribuía autógrafos.

Ultimamente tenho notado que a maioria dos cantores de quem passo a gostar, me surge da forma mais singela e ordinária possível. Novamente devo ao Beto os créditos por ter me apresentado a artista da vez. Estávamos a conversar no MSN e, em meio à conversa, ele perguntou se poderia me enviar uma música da qual muito gostava. Ao meu sinal de aprovação, envia-me a canção Gopher, do álbum “Mambo!”, de 1954. A mim, um indivíduo que entende muito pouco do assunto, a música soou como uma mistura de mambo (jura?) com leves pitadas de chá-chá-chá, agraciadas com a lírica voz da “Xtabay”.

Para quem não sabe, Xtabay é uma personagem mitológica da cultura Inca. Existem duas histórias envolvendo  esta mesma figura. Na primeira, tratava-se duma mulher muito bela que, por conta de seus hábitos nada convencionais e mal vistos pela tribo, passou a ser tachada de prostituta (algumas versões afirmam que se tratava dum demônio). De tanto ser humilhada, se isolou. Passados alguns dias, um agradável odor espalhou-se pela vila. Os moradores descobriram que o cheiro vinha do interior da cabana da infeliz, onde havia morrido sozinha. Alguns indivíduos, apiedados, sepultaram-na. No dia seguinte, ao passarem em frente a sua sepultura, notaram que belas flores com um suave perfume haviam brotado sobre o local no qual tinha sido enterrada. Tais flores foram batizadas de Xtabentún (esta espécie só existe na América Latina, do México ao Chile).

Na segunda versão, que, aparentente, foi a que inspirou Yma a batizar seu primeiro álbum de “Voice of the Xtabay” (Nova Iorque, 1950), a personagem dizia respeito a uma bela, jovem e virgem garota inca, que se apaixona por um príncipe asteca. Tal amor era proibido, visto que, além de serem de tribos diferentes, ela era uma humilde aldeã e o rapaz era um nobre, um príncipe. Incapaz de conter os sentimentos em seu coração, Xtabay os canta para as montanhas, o vento e para quem mais pudesse ouvir. Sua voz era tão encantadora e penetrante que, contra suas expectativas, acabou alcançando e mantando o distante príncipe.

Apesar do nome em inglês, as canções do primeiro álbum são cantadas na língua do antigo povo nativo da região de origem de Zoila. E por falar nisso, em meio ao tremendo sucesso que alcançou na metade do século XX, circulava o boato de que ela era uma princesa inca, descendente direta do imperador Atahualpa. Vale ressaltar que Sumac sempre se demonstrou bastante ligada à sua cultura, fato que se evidencia pelas vestes que usava, pelo idioma que elegia e pelo estilo musical que se propunha a cantar.

Talvez a beleza da latina incitasse nas mentes dos espectadores tais histórias acerca de sua origem e acabasse por gerar diferentes versões para um mesmo fato nas biografias a ela dedicadas ao longo de sua vida. Aliás, bela, assim como talentosa, são adjetivos que caracterizavam (e ainda caracterizam, nas lembranças e fotos) perfeitamente a cantora.

Yma encarnava o papel de uma diva. Estourou no auge de sua juventude e beleza, gravou inúmeros discos, viajou todo o mundo fazendo concertos, estrelou um musical, quatro filmes, recebeu premiações, apareceu no programa “Late Night with David Letterman”, foi homenageada por outros artistas, é uma das principais expoentes do estilo musical “exótica”, e teve até suas canções incluídas em trilhas sonoras de filmes e comerciais. Personalidade constante em revistas e jornais, a peruana era representada em fotografias no estilo tão característico da época, com decotados vestidos cravejados de brilhantes, cabeleira lustrosa, além das jóias que, como se dizia naquele tempo, eram as melhores amigas das mulheres.

Daí o pesar que normalmente se sente ao constatar o efeito que o tempo tem sobre as pessoas. Com o passar das décadas, a cantora foi deixando de contar com as curvas sinuosas de seu corpo e com os joviais traços de seu rosto. Mas verdade seja dita, conservou sua beleza por muitos anos (apesar de nunca ter usado seu corpo como atrativo). E ainda que a juventude lhe tenha inevitavelmente escapado pelos dedos, o talento, porém, nunca a deixou. Sua atividade musical prosseguiu até a década de 90.

Yma Sumac faleceu ao dia 1 de novembro de 2008, em Los Angeles, aos 86 anos, de câncer colorretal. Seu corpo foi enterrado no “Hollywood Forever Cemitery”, em Hollywood, Califórnia, na seção “Sanctuary of Memories”. A lembrança e a obra, porém, jamais perecerão.

Aos interessados, logo abaixo alguns links úteis:

Site Oficial . Fã Clube . Biografia (Inglês) . Biografia (Espanhol) . Biografia (Português) . Comunidade (Orkut) . Grupo (Facebook) . Download (4 Álbuns)

O vídeo abaixo é um trecho do filme “Secret of the Incas” (O Segredo dos Incas), do qual participou em 1954.  Muitos de vocês talvez não gostem dos graves emitidos ao início do vídeo, mas tentem assistir até o fim, e vejam como, maestricamente, ela muda de barítono para soprano. Após assistirem ao vídeo, vocês entenderão o motivo pelo qual o texto foi intitulado “Uma mulher, muitas vozes”.


Bom Proveito!

P.S Segundo as fontes nas quais me baseei para escrever este texto, uanimemente, a canção “Chunco – The Forest Creatures” é a que mais exemplifica a extensão vocal da cantora.

And will we ever end up together?

20 ago

Ainda me lembro como se fosse ontem a primeira vez que pus os olhos numa das melhores produções de Tim Burton, The Nightmare Before Christmas (ou O Estranho Mundo de Jack, na versão brasileira). Eu devia ter em torno de 4 ou 5 anos. Geralmente, essa animação era exibida tarde da noite na véspera de Natal. Quando o medo não superava a curiosidade ou quando eu não caía de sono, assistia até o fim. Porém, durante longos anos, esse magnífico trabalho cinematográfico deixou de ser exibido em canais abertos e, pouco a pouco, as lembranças foram adormecendo até chegar um momento em que eu nem sequer me rememorava da existência desse filme.

Entretanto, a despeito da impressão que essa pequena introdução possa passar, cinema não é a temática deste texto. Aliás, poder-se-ia dizer que é, porém não exclusivamente. A minha intenção aqui é discorrer principalmente sobre uma das faixas da incrível trilha sonora desta produção, assinada por Danny Elfman. A música a qual me refiro chama-se “Sally’s Song” (Canção da Sally) e, na dublagem original, era executada pela voz da atriz canadense Catherine O’Hara, que apesar de não ser cantora é, certamente, uma adepta da opinião de que artistas não devem se limitar apenas a uma única forma de expressão.

Esta trilha sonora, assim como o filme, data de 1993. Porém, nos últimos anos, ganhou novas versões – como em 2006, quando 11 das 20 faixas originais foram regravadas pelas vozes de alguns artistas contemporâneos, além do próprio Danny Elfman, que além de produzir, também participa como cantor. Nesta versão, a música tema da personagem Sally é interpretada pela excêntrica cantora norte-americana Fiona Apple.

Apesar de já ter conhecimento desta regravação, nunca a tinha ouvido. Nunca havia, também, escutado a voz da nova intérprete que eu só conhecia por fotos e cuja voz, a julgar pela aparência da artista, acreditava ser doce e aguda. No último fim de semana, contudo, estava a conversar com um amigo, o Beto, e, em meio à conversa, ele acabou me impelindo a escutar a versão da cantora, sob a afirmação de que sua voz enquadrava-se mais com o perfil da personagem do que a voz da última intérprete, sobre quem logo falarei e de quem sou fã assumido.

Ouvir a voz de Fiona interpretando a canção primeiramente entoada por Catherine me conduziu a uma sensação estranhamente boa. De fato, a voz tinha muito a ver com a personagem. Era depressiva, profunda, visceral, apaixonada e ao mesmo tempo grave. As antigas impressões de voz aguda e doce que eu associava a Miss Apple caíram por terra. Não que isso seja ruim, pelo contrário. É uma voz muito bonita que, em vista da gravidade de seu tom, contrasta com o suave rostinho de anjo da cantora. Se vocês prestarem bastante atenção, vão perceber que a percussão da música, no início e no fim da canção, simula, propositalmente, batidas de coração, que no meio da música são substituídas pelo som da bateria. Eu poderia passar horas relatando minha experiência auditiva, mas prefiro que os leitores tirem suas próprias conclusões. Assistam ao vídeo logo abaixo:

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No dia 30 de setembro de 2008, – cinco dias após o meu aniversário de 18 anos – sob o título “Nightmare Revisited”, foi lançado o álbum que continha as 20 faixas originais da trilha sonora, cantadas por novos artistas. Diferentemente das outras versões, Danny Elfman não é o único a assinar a produção desse álbum. Seu trabalho faz-se presente, porém apenas nas canções de abertura e encerramento. Imaginem a minha surpresa e felicidade ao descobrir que, desta vez, a Canção da Sally seria interpretada pela vocalista da banda que mais admiro desde os meus 12 anos de idade, ou seja, ninguém mais ninguém menos que Amy Lee, a líder do grupo Evanescence. Sem contar que Will Hunt, integrante da mesma banda, além de contribuir com a bateria, é também o produtor dessa versão.

Vale ressaltar que foi justamente graças a Amy Lee, anos antes, que eu lembrei-me de ter assistido e de como gostava desse filme. Em entrevistas, ela sempre dizia que “The Nightmare Before Christmas” era seu filme favorito. Motivado pela minha curiosidade, resolvi pesquisar sobre tal longa-metragem. Qual não foi o meu espanto ao dar de cara com imagens de Jack Skellington, Sally, Oogie Boogie, Doctor Finklestein, Lock, Shock, Barrel etc. Ver aquelas imagens despertou imediatamente todas as minhas lembranças do filme que havia assistido tanto tempo atrás. Mas voltemos a falar apenas da canção, para não perder o foco.

Ao contrário de Fiona Apple, Amy Lee, sim, tem uma voz doce e aguda, apesar de ser capaz de torná-la grave em função de sua vontade. Porém quem a conhece – e conhece seu trabalho – sabe que a doçura de sua voz, em contraste com os pesados arranjos de guitarra, baixo e bateria com os quais divide espaço no palco é uma de suas marcas registradas. Nunca me esqueço do comentário duma antiga professora minha de português que dizia não importar o quão pesados fossem os arranjos do início de suas canções, tão logo ela começasse a cantar, suavizaria a música.

Mas no caso de Sally’s Song não há nenhum arranjo como os das canções do Evanescence. O piano e a harpa tratam de dar à música o tom desejado e, apesar de não contar com o som do violino (o que é uma pena), como a versão de Fiona, a interpretação de Amy Lee não deixa a desejar. Em 2007, ela havia começado a estudar harpa clássica, após ter sido presenteada com o instrumento por seu marido, Josh Hartzler. O resultado dos estudos pode ser conferido no vídeo abaixo:

É interessante notar como, apesar das significativas diferenças, todas as intérpretes de Sally’s Song têm muito em comum com a personagem do filme. Determinadas características das cantoras se assemelham (ou correspondem quase que totalmente) a determinadas características da boneca de pano. Sally é a encarnação do amor e da abnegação. A admiradora secreta disposta a se sacrificar pelo bem do amado. Donzela de expressão triste, vivendo quase que sob cárcere de seu criador, Doctor Finklestein, a quem está disposta a burlar para atingir seus objetivos de perdida apaixonada. Sua paixão, entretanto, não ofusca sua razão, através da qual apela a Jack pelo bom senso. Paradoxalmente, seu vasto conhecimento acerca de ervas e poções contrasta com seu estereótipo de garota americana recatada (exteriormente puritana e interiormente evoluída). Seu lado depressivo certamente lembra tanto Amy Lee quanto Fiona Apple, mas só a última tem a mesma cabeleira ruiva.

Enfim, espero que os leitores apreciem ambas as versões e sintam-se a vontade para expor suas opiniões acerca do que foi acima explicitado.

Antes de ir embora, gostaria apenas de informar que na edição japonesa do Nightmare Revisited, há uma faixa bônus. Trata-se duma outra versão de Sally’s Song, cantada em japonês por Scott Murphy, vocalista da banda norte-americana de pop punk, Allister. Mesmo cantada em japonês, por uma voz masculina e com um ritmo muito mais agitado, a canção não perde seu encanto:

Bom Proveito!

P.S O título do texto é um verso extraído da canção. Vernaculamente pode ser traduzido como “Será que um dia ficaremos juntos?

And does he notice

My feelings for him?

When will he see

How much he means to me?

Sally’s Song

It fills my head up and gets louder and louder…

15 ago

Não há frase que melhor descreva o sentimento de preenchimento que me ocorre ao ouvir Florence Welch entoar suas peculiares canções na compainha dos talentosos músicos que com ela formam a denominação Florence and the Machine (ou Florence + the Machine). Aliás, peculiaridade é um substantivo que se associa perfeitamente com a cantora. Não apenas pela radiante cor ruiva dos seus cabelos ou por seus profundos olhos azuis, muito menos pelas roupas pouco convencionais (apesar da bem sucedida intenção de exprimir idéias e emoções também estilisticamente) ou por seus videoclipes ao mesmo tempo românticos e surreais. Mas antes de tudo pelos fatores que musicalmente nos interessam, o principal: sua voz e suas canções.

Pra mim é realmente difícil representar em palavras a magnificência que é a voz dessa britânica de quase 24 anos de idade e cujo nome completo, Florence Leontine Mary Welch, soa intencionalmente poético – suposição advinda do fato de que sua mãe é uma estudiosa do Renascimento e professora acadêmica e seu pai um escritor. O resultado do que começa em seus pulmões (e que fique claro que essa palavra se faz constantemente presente em suas canções, seja homônima, sinônima, parônima ou derivadamente, bem como é este o próprio nome de seu álbum) e é expresso audivelmente na forma de suaves notas vocais, certamente supera em beleza os acordes da lira do mitológico Orfeu ou a capacidade hipnotizante exercida pelas notas do não menos mitológico Flautista de Hamelin. Sua voz suave adequa-se divinamente ao tipo musical que se propõe a cantar. E isso nos leva ao segundo fator, suas canções. Em ambos os elementos, – letra e ritmo – suas músicas são indescritivelmente belas e dum extremo bom gosto.

Verdade seja dita, Florence é uma das poucas artistas que conseguem falar de amor ou de dependência emocional e sentimental sem parecer piegas. Há, em seu trabalho, as medidas certas de desejo e desapego, do raro e do ordinário. É ao mesmo tempo cristão e pagão, elementos que se abraçam e que se repelem ritmicamente para formar o som característico que lhe conferiu premiações no 2009 BRIT Awards, no Studio8 Media International Music Award, no UK Festival Awards 2009, no South Bank Show, no 2010 BRIT Awards, no Meteor Ireland Music Award e no Elle Style Awards. Porém esses são apenas os eventos nos quais foi premiada. Se eu fosse citar todas as premiações para as quais foi indicada, a lista seria muito maior, não se esquecendo que falamos duma artista que tem apenas pouco mais de um ano de estrada.

Apesar de não ser tão popular aqui quanto na Europa (como a maioria dos artistas a quem dedico escritos neste blog), Florence certamente usufrui dum certo status entre os admiradores da boa música, e para o relativo pouco tempo neste ramo (seu primeiro álbum – o qual ainda não foi sucedido – data de julho de 2009), ela tem um grande número de fãs. Sem contar que algumas seletas emissoras de rádio brasileiras tocam sua música. Basta dar uma olhada no número de usuários presente em sua maior comunidade brasileira no orkut e saberão do que estou falando.

Eu acompanho a trajetória da londrina e seu grupo praticamente desde o início. A conheci por puro acaso (o que não é raro) quando assistia no YouTube a um vídeo cujo conteúdo não me rememoro. Na parte superior direita havia um pequeno anúncio do lançamento de seu primeiro álbum. Como sou muito suscetível a influências visuais, fui atraído pela imagem duma mulher radiantemente ruiva, com uma expressão ao mesmo tempo soturna e convidativa, e com as palmas das mãos voltadas para cima, ao lado de seu rosto, cobertas com pedaços dum material dourado o qual eu não consegui identificar. O deleite visual só foi superado pelo auditivo, tão logo passei a assistir ao videoclipe de seu primeiro single, Dog Days Are Over. Depois deste veio o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e finalmente o sexto e ultimo single do álbum em questão foi lançado em meados de 2010.

Antes de me despedir, gostaria de dizer que para escolher o vídeo com o qual finalizarei este texto, tive extrema dificuldade, em vista do fato de que os graus de preferência que tenho por cada música não necessariamente correspondem aos graus de preferência que tenho pelos vídeos. Mas depois de pensar um pouco, resolvi optar pelo meu vídeo favorito, pois neste o sotaque britânico demonstra-se mais evidente e os paradoxos (cristão e pagão, por exemplo) encontram-se mais visíveis, além do fato de que toda a produção conta com uma dança maestricamente executada por Florence e por suas acompanhantes. Não deixem de reparar nos detalhes.

Ah, e antes que me esqueça, para não perder a prática, alguns links úteis.

Site Oficial . Biografia (Inglês) . Biografia (Português) . MySpace . Comunidade (Orkut) . Grupo (Facebook)


Bom Proveito!

P.S O título do texto é um trecho extraído da mesma música cantada no vídeo acima. A tradução é: “Preenche minha cabeça e vai ficando cada vez mais alto”.