Archive | agosto, 2010

And will we ever end up together?

20 ago

Ainda me lembro como se fosse ontem a primeira vez que pus os olhos numa das melhores produções de Tim Burton, The Nightmare Before Christmas (ou O Estranho Mundo de Jack, na versão brasileira). Eu devia ter em torno de 4 ou 5 anos. Geralmente, essa animação era exibida tarde da noite na véspera de Natal. Quando o medo não superava a curiosidade ou quando eu não caía de sono, assistia até o fim. Porém, durante longos anos, esse magnífico trabalho cinematográfico deixou de ser exibido em canais abertos e, pouco a pouco, as lembranças foram adormecendo até chegar um momento em que eu nem sequer me rememorava da existência desse filme.

Entretanto, a despeito da impressão que essa pequena introdução possa passar, cinema não é a temática deste texto. Aliás, poder-se-ia dizer que é, porém não exclusivamente. A minha intenção aqui é discorrer principalmente sobre uma das faixas da incrível trilha sonora desta produção, assinada por Danny Elfman. A música a qual me refiro chama-se “Sally’s Song” (Canção da Sally) e, na dublagem original, era executada pela voz da atriz canadense Catherine O’Hara, que apesar de não ser cantora é, certamente, uma adepta da opinião de que artistas não devem se limitar apenas a uma única forma de expressão.

Esta trilha sonora, assim como o filme, data de 1993. Porém, nos últimos anos, ganhou novas versões – como em 2006, quando 11 das 20 faixas originais foram regravadas pelas vozes de alguns artistas contemporâneos, além do próprio Danny Elfman, que além de produzir, também participa como cantor. Nesta versão, a música tema da personagem Sally é interpretada pela excêntrica cantora norte-americana Fiona Apple.

Apesar de já ter conhecimento desta regravação, nunca a tinha ouvido. Nunca havia, também, escutado a voz da nova intérprete que eu só conhecia por fotos e cuja voz, a julgar pela aparência da artista, acreditava ser doce e aguda. No último fim de semana, contudo, estava a conversar com um amigo, o Beto, e, em meio à conversa, ele acabou me impelindo a escutar a versão da cantora, sob a afirmação de que sua voz enquadrava-se mais com o perfil da personagem do que a voz da última intérprete, sobre quem logo falarei e de quem sou fã assumido.

Ouvir a voz de Fiona interpretando a canção primeiramente entoada por Catherine me conduziu a uma sensação estranhamente boa. De fato, a voz tinha muito a ver com a personagem. Era depressiva, profunda, visceral, apaixonada e ao mesmo tempo grave. As antigas impressões de voz aguda e doce que eu associava a Miss Apple caíram por terra. Não que isso seja ruim, pelo contrário. É uma voz muito bonita que, em vista da gravidade de seu tom, contrasta com o suave rostinho de anjo da cantora. Se vocês prestarem bastante atenção, vão perceber que a percussão da música, no início e no fim da canção, simula, propositalmente, batidas de coração, que no meio da música são substituídas pelo som da bateria. Eu poderia passar horas relatando minha experiência auditiva, mas prefiro que os leitores tirem suas próprias conclusões. Assistam ao vídeo logo abaixo:

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No dia 30 de setembro de 2008, – cinco dias após o meu aniversário de 18 anos – sob o título “Nightmare Revisited”, foi lançado o álbum que continha as 20 faixas originais da trilha sonora, cantadas por novos artistas. Diferentemente das outras versões, Danny Elfman não é o único a assinar a produção desse álbum. Seu trabalho faz-se presente, porém apenas nas canções de abertura e encerramento. Imaginem a minha surpresa e felicidade ao descobrir que, desta vez, a Canção da Sally seria interpretada pela vocalista da banda que mais admiro desde os meus 12 anos de idade, ou seja, ninguém mais ninguém menos que Amy Lee, a líder do grupo Evanescence. Sem contar que Will Hunt, integrante da mesma banda, além de contribuir com a bateria, é também o produtor dessa versão.

Vale ressaltar que foi justamente graças a Amy Lee, anos antes, que eu lembrei-me de ter assistido e de como gostava desse filme. Em entrevistas, ela sempre dizia que “The Nightmare Before Christmas” era seu filme favorito. Motivado pela minha curiosidade, resolvi pesquisar sobre tal longa-metragem. Qual não foi o meu espanto ao dar de cara com imagens de Jack Skellington, Sally, Oogie Boogie, Doctor Finklestein, Lock, Shock, Barrel etc. Ver aquelas imagens despertou imediatamente todas as minhas lembranças do filme que havia assistido tanto tempo atrás. Mas voltemos a falar apenas da canção, para não perder o foco.

Ao contrário de Fiona Apple, Amy Lee, sim, tem uma voz doce e aguda, apesar de ser capaz de torná-la grave em função de sua vontade. Porém quem a conhece – e conhece seu trabalho – sabe que a doçura de sua voz, em contraste com os pesados arranjos de guitarra, baixo e bateria com os quais divide espaço no palco é uma de suas marcas registradas. Nunca me esqueço do comentário duma antiga professora minha de português que dizia não importar o quão pesados fossem os arranjos do início de suas canções, tão logo ela começasse a cantar, suavizaria a música.

Mas no caso de Sally’s Song não há nenhum arranjo como os das canções do Evanescence. O piano e a harpa tratam de dar à música o tom desejado e, apesar de não contar com o som do violino (o que é uma pena), como a versão de Fiona, a interpretação de Amy Lee não deixa a desejar. Em 2007, ela havia começado a estudar harpa clássica, após ter sido presenteada com o instrumento por seu marido, Josh Hartzler. O resultado dos estudos pode ser conferido no vídeo abaixo:

É interessante notar como, apesar das significativas diferenças, todas as intérpretes de Sally’s Song têm muito em comum com a personagem do filme. Determinadas características das cantoras se assemelham (ou correspondem quase que totalmente) a determinadas características da boneca de pano. Sally é a encarnação do amor e da abnegação. A admiradora secreta disposta a se sacrificar pelo bem do amado. Donzela de expressão triste, vivendo quase que sob cárcere de seu criador, Doctor Finklestein, a quem está disposta a burlar para atingir seus objetivos de perdida apaixonada. Sua paixão, entretanto, não ofusca sua razão, através da qual apela a Jack pelo bom senso. Paradoxalmente, seu vasto conhecimento acerca de ervas e poções contrasta com seu estereótipo de garota americana recatada (exteriormente puritana e interiormente evoluída). Seu lado depressivo certamente lembra tanto Amy Lee quanto Fiona Apple, mas só a última tem a mesma cabeleira ruiva.

Enfim, espero que os leitores apreciem ambas as versões e sintam-se a vontade para expor suas opiniões acerca do que foi acima explicitado.

Antes de ir embora, gostaria apenas de informar que na edição japonesa do Nightmare Revisited, há uma faixa bônus. Trata-se duma outra versão de Sally’s Song, cantada em japonês por Scott Murphy, vocalista da banda norte-americana de pop punk, Allister. Mesmo cantada em japonês, por uma voz masculina e com um ritmo muito mais agitado, a canção não perde seu encanto:

Bom Proveito!

P.S O título do texto é um verso extraído da canção. Vernaculamente pode ser traduzido como “Será que um dia ficaremos juntos?

And does he notice

My feelings for him?

When will he see

How much he means to me?

Sally’s Song

It fills my head up and gets louder and louder…

15 ago

Não há frase que melhor descreva o sentimento de preenchimento que me ocorre ao ouvir Florence Welch entoar suas peculiares canções na compainha dos talentosos músicos que com ela formam a denominação Florence and the Machine (ou Florence + the Machine). Aliás, peculiaridade é um substantivo que se associa perfeitamente com a cantora. Não apenas pela radiante cor ruiva dos seus cabelos ou por seus profundos olhos azuis, muito menos pelas roupas pouco convencionais (apesar da bem sucedida intenção de exprimir idéias e emoções também estilisticamente) ou por seus videoclipes ao mesmo tempo românticos e surreais. Mas antes de tudo pelos fatores que musicalmente nos interessam, o principal: sua voz e suas canções.

Pra mim é realmente difícil representar em palavras a magnificência que é a voz dessa britânica de quase 24 anos de idade e cujo nome completo, Florence Leontine Mary Welch, soa intencionalmente poético – suposição advinda do fato de que sua mãe é uma estudiosa do Renascimento e professora acadêmica e seu pai um escritor. O resultado do que começa em seus pulmões (e que fique claro que essa palavra se faz constantemente presente em suas canções, seja homônima, sinônima, parônima ou derivadamente, bem como é este o próprio nome de seu álbum) e é expresso audivelmente na forma de suaves notas vocais, certamente supera em beleza os acordes da lira do mitológico Orfeu ou a capacidade hipnotizante exercida pelas notas do não menos mitológico Flautista de Hamelin. Sua voz suave adequa-se divinamente ao tipo musical que se propõe a cantar. E isso nos leva ao segundo fator, suas canções. Em ambos os elementos, – letra e ritmo – suas músicas são indescritivelmente belas e dum extremo bom gosto.

Verdade seja dita, Florence é uma das poucas artistas que conseguem falar de amor ou de dependência emocional e sentimental sem parecer piegas. Há, em seu trabalho, as medidas certas de desejo e desapego, do raro e do ordinário. É ao mesmo tempo cristão e pagão, elementos que se abraçam e que se repelem ritmicamente para formar o som característico que lhe conferiu premiações no 2009 BRIT Awards, no Studio8 Media International Music Award, no UK Festival Awards 2009, no South Bank Show, no 2010 BRIT Awards, no Meteor Ireland Music Award e no Elle Style Awards. Porém esses são apenas os eventos nos quais foi premiada. Se eu fosse citar todas as premiações para as quais foi indicada, a lista seria muito maior, não se esquecendo que falamos duma artista que tem apenas pouco mais de um ano de estrada.

Apesar de não ser tão popular aqui quanto na Europa (como a maioria dos artistas a quem dedico escritos neste blog), Florence certamente usufrui dum certo status entre os admiradores da boa música, e para o relativo pouco tempo neste ramo (seu primeiro álbum – o qual ainda não foi sucedido – data de julho de 2009), ela tem um grande número de fãs. Sem contar que algumas seletas emissoras de rádio brasileiras tocam sua música. Basta dar uma olhada no número de usuários presente em sua maior comunidade brasileira no orkut e saberão do que estou falando.

Eu acompanho a trajetória da londrina e seu grupo praticamente desde o início. A conheci por puro acaso (o que não é raro) quando assistia no YouTube a um vídeo cujo conteúdo não me rememoro. Na parte superior direita havia um pequeno anúncio do lançamento de seu primeiro álbum. Como sou muito suscetível a influências visuais, fui atraído pela imagem duma mulher radiantemente ruiva, com uma expressão ao mesmo tempo soturna e convidativa, e com as palmas das mãos voltadas para cima, ao lado de seu rosto, cobertas com pedaços dum material dourado o qual eu não consegui identificar. O deleite visual só foi superado pelo auditivo, tão logo passei a assistir ao videoclipe de seu primeiro single, Dog Days Are Over. Depois deste veio o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e finalmente o sexto e ultimo single do álbum em questão foi lançado em meados de 2010.

Antes de me despedir, gostaria de dizer que para escolher o vídeo com o qual finalizarei este texto, tive extrema dificuldade, em vista do fato de que os graus de preferência que tenho por cada música não necessariamente correspondem aos graus de preferência que tenho pelos vídeos. Mas depois de pensar um pouco, resolvi optar pelo meu vídeo favorito, pois neste o sotaque britânico demonstra-se mais evidente e os paradoxos (cristão e pagão, por exemplo) encontram-se mais visíveis, além do fato de que toda a produção conta com uma dança maestricamente executada por Florence e por suas acompanhantes. Não deixem de reparar nos detalhes.

Ah, e antes que me esqueça, para não perder a prática, alguns links úteis.

Site Oficial . Biografia (Inglês) . Biografia (Português) . MySpace . Comunidade (Orkut) . Grupo (Facebook)


Bom Proveito!

P.S O título do texto é um trecho extraído da mesma música cantada no vídeo acima. A tradução é: “Preenche minha cabeça e vai ficando cada vez mais alto”.

It’s not about sex but about sexuality…

3 ago

Hoje resolvi fazer algo um pouco diferente. Pela primeira vez, vou me desligar um pouco do lado musical para fazer a minha primeira análise cinematográfica (se é que se pode chamar o que eu escrevo de análise). Apesar de gostar muito de cinema, nunca me senti confortável o suficiente para escrever sobre filmes e não saberia dizer por quê. Nem mesmo no meu blog anterior (Sceptical Poet) me atrevi a escrever sobre esse tema. Porém, recentemente, assisti uma produção que me impressionou bastante (pelos mais diversos motivos) e sobre a qual venho sentindo vontade de escrever desde então. Mas a insegurança me fez adiar a tentativa até o dia presente.

O filme do qual trato chama-se “Shortbus”, dirigido e escrito pelo norte-americano John Cameron Mitchell. Apesar de datar de 2006, é provável que pouquíssimos de vocês tenham o assistido, mesmo hoje em meados de 2010. Eu ousaria dizer que seu tema e o despudor que o caracteriza não o permitiram tornar-se tão popular, mas na minha humilde e leiga opinião, essa produção merecia ter faturado o Oscar, seja pelo enredo que mistura drama e comédia nas doses perfeitas, pelo realismo e por ser uma iniciativa ousada e original para a qual as mentes dos americanos protestantes não estavam preparadas.

Problemas afetivo-sexuais constituem-se no principal tema do filme. Nele, as histórias dos vários personagens se cruzam a todo tempo, mesmo em New York (the Big Apple), e é através dessa teia de relações que acontecem os episódios mais incomuns do longa. Shortbus, um salão descrito como sócio-artístico-sexual, é o local de encontro dos personagens, a partir do qual se desenrolam os acontecimentos mais importantes, as experiências mais relevantes e as auto-descobertas de indivíduos que sofrem dos mais diversos problemas de ordem psicológica (depressão, por exemplo) – como o ex-prostituto suicida James, que se joga numa piscina, com um saco plástico amarrado à cabeça, como a dominatrix Severin, que sofria de sérios problemas com a auto-estima, ou ainda como a terapeuta sexual Sofia, que jamais teve um orgasmo em toda a sua vida.

Shortbus foi um verdadeiro dedo na ferida dos conservadores, devido ao despudor e às cenas reais de sexo. Unido a isso, o ménage a trois entre os personagens gays Jamie, James e Ceth, fez com que o filme fosse taxado como pornográfico pela crítica. Mas é clara a intenção do diretor de desprover do sexo todo o cunho erótico que o caracteriza nas produções pornográficas, com o intuito de “remover a nuvem de excitação para revelar emoções e idéias que podem ter sido ocultados por ela”. O filme faz parte de uma tendência que vem se desenvolvendo nos últimos anos, de alguns diretores mesclarem cenas de sexo real em enredos de filmes cujo foco principal, entretanto, não é o sexo em si, mas na verdade qualquer tema presente em outros filmes, drama, comédia, ação, relações humanas, enfim.

Definitivamente você não se sentiria confortável assistindo esse filme com o seu pai, sua mãe, tia, tio, avó, avô etc. E provavelmente não permitiria que seu filho menor de idade o assistisse (apesar da minha forte convicção de que se ele for adolescente, já assistiu coisas muito mais explícitas). Mas apesar dos tabus e da capa proibitiva e imoral com o qual o sexo foi revestido pela religião e pelos dogmas ao longo dos séculos, Shortbus é uma história emocionante, sensível, original, tocante, dotada de atuações perfeitas e de diálogos bem elaborados. Não se surpreenda se por acaso se identificar com um dos personagens. Quem não tem problemas afetivo-sexuais que atire a primeira pedra.*

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“Sex, like music, is a universal language. We want to use it to introduce character, evoke emotion, propel the plot”.

John Cameron Mitchell