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Auto-Retrato

17 jul


Em 2008, Anderson Venício, meu então professor de gramática e redação, sugeriu à classe que escrevesse um auto-retrato, ou seja, um texto que tratasse de nossa própria identidade, que nos descrevesse. Não apenas um retrato falado de nossas características exteriores, mas antes o modo como víamos a nós mesmos, como interpretávamos nossas personalidades. Eu nunca havia feito isso em todos os meus 17 anos. Custei a fazer, fui um dos últimos. Mas acabei fazendo. Fazendo e apreciando.

O meu atual e divertidíssimo professor de Direito Constitucional, Gaspare Saraceno, italiano que possui também a nacionalidade brasileira, disse recentemente que quando escreve algo cujo resultado lhe agrada, tem o hábito de ler e reler, como uma forma de massagear o próprio ego. Disso resulta um certo deslumbramento, mais ou menos da espécie “Nossa, eu escrevi isso?” – e deste deslumbramento acabam surgindo alguns auto-elogios.

Depois que ele disse isso, eu me dei conta de que eu era exatamente igual. Principalmente nos últimos meses, durante os quais passei por um bloqueio por conta do qual não conseguia escrever mais que dez linhas sobre qualquer assunto. E assim, sempre que conseguia escrever algo bom, eu sentia, mesmo lutando contra, um certo orgulho de mim mesmo.

Foi exatamente isso que senti dois anos atrás quando terminei o pequeno trabalho sugerido pelo meu antigo professor de redação. Gostaria de compartilhá-lo agora com vocês. Quero também, se possível, que me dêem a sua sincera opinião acerca do que vão ler. E, pra encerrar esse falatório e partirmos logo para o texto em questão, é preciso que saibam que o texto original sofreu modificações e adaptações. Coisas mínimas, como, por exemplo, a mudança de “17 anos” para 19. Ah! E foi escrito em 3ª pessoa.

Boa leitura!

Abre Aspa

Leonardo Alves, 19 anos, alienado, falastrão, aspirante a palhaço, às vezes poeta, considerado por 90% dos seus conhecidos como chato e extremamente pessimista.

Construtor de sonhos e destruidor dos mesmos. Pretende ser qualquer coisa que lhe confira status e estabilidade financeira, de modo a poder se dar a luxos como aprender a tocar violino (prioridade) e morar nos Estados Unidos, Europa ou Japão.

Dos 13 aos 17 anos tentou montar uma banda de rock da qual ele seria o vocalista (o que torna esse sonho impossível, pois sua voz é pior do que a de uma “taquara rachada”). Composições ele tem aos montes. Só falta dar-lhes melodia.

Sofre de déficit de atenção (mesmo estando parado, quieto, aparentemente ouvindo, as palavras lhe penetram o cérebro aleatoriamente, se misturando com o turbilhão de pensamentos que já habitam sua cabeça, criando um misto de confusão e desentendimento) e também de depressão (vez ou outra ainda tem uma daquelas recaídas violentas). Os motivos? Poderia escrever um livro listando todos eles.

Houve épocas em que só ficava satisfeito quando fosse o centro das atenções. Porém, hoje, a situação é inversa. Acabou se dando conta de que passar despercebido é a melhor forma de sobreviver sem muitos machucados.

Sobre sua aparência física, contra a opinião geral, crê de pés juntos que está acima do peso, e cada dia é uma batalha épica contra a vontade de se entregar às tentações do paladar e, posteriormente, contra a frustração de ter se rendido tão facilmente (o pior é que quanto ele menos come, mais engorda). Não é alto, tem estatura mediana, acho. Jamais teve a pretensão de se dizer bonito (ou sequer de pensar). Cabelos crespos, mantendo-os constantemente raspados, bochechas volumosas, nariz empinado, olhos castanhos escuros, usuário de aparelho ortodôntico etc.

Gosta de pop, rock, música clássica, industrial, e uma gama de outros estilos musicais que a maioria das pessoas desconhece.

Se um literato o conhecesse profundamente, diria que ele nasceu no século errado. Creio que devido a essas características não muito bem-vindas na sociedade atual.

Ateu e apolítico, seu humor varia com mais freqüência do que as fases da lua.

Ama aos bocados, mas nunca teve muita sorte quanto a ser amado. Não nutre ódio por ninguém, e mesmo que quisesse, não conseguiria. Disse uma vez certo personagem de A Sombra do Vento*: “Detestar é, de fato, um talento que se aprende com os anos”.

Basicamente, existem seis tipos de pessoas com quem evita conviver. São elas: pessoas efusivas, falsas, violentas, que não cumprem suas promessas, ignorantes e indiscretas. Bem, isso é um tanto irônico, pois eu o conheço há anos, e sei que ele mesmo é, às vezes, um tanto efusivo, e em certas ocasiões, deixa de cumprir suas promessas. Este último fator o levou a, ao menos, tentar não prometer mais nada. Mas escute bem, eu disse tentar. Isso porque de vez em quando se vê obrigado a fazê-lo, devido a árdua insistência de algumas pessoas (o que fez com que acrescentasse mais uma categoria ao grupo de pessoas com as quais evita conviver, os insistentes).

Antes de partir para o fim, é preciso relatar mais um traço da sua personalidade. Hoje não tão evidente, mas em ocasiões passadas quase se confundia com a totalidade de sua identidade (exagero). Se o ponto de vista adotado for o estrangeirismo, pode-se dizer que ele é um indivíduo culturalmente ativo. Nutre quase que uma adoração por artistas internacionais, gibis, mangás e animes. Mesmo com as constantes pressões acadêmicas, vez ou outra escuta suas, digamos, inspirações: “Evanescence”, “My Chemical Romance”, Emilie Autumn, Alanis Morissette etc.

No fim das contas, com o perdão da cantora, diria Björk que ele é só uma fonte de sangue no formato dum rapaz (adaptado de Bachelorette”).

Obrigado pela atenção.

Fecha Aspa

* O quadro no início do post chama-se Hylas and the Nymphs, foi pintado por John William Waterhouse em 1896.