Arquivo | História RSS feed for this section

Filmes, Lenços e Esquizofrenia

22 dez

Poucos são os filmes que me fazem chorar ou sentir vontade. Eu acho que até poderia contá-los nos dedos. Não me refiro apenas aos tristes. Tanto um drama, quanto um épico, uma aventura ou um romance podem por minhas glândulas lacrimais para trabalhar. Geralmente acontece quando um personagem se sacrifica para salvar outro, quando há uma catástrofe apocalíptica na qual muitos morrem, quando algum deles demonstra poder e vivacidade além da conta, ou quando há cenas excessivamente cruéis e dolorosas. Os diretores têm ainda a perspicácia de colocar uma trilha, digamos, dramática, ao fundo, o que resulta num simultâneo estímulo de vários sentidos, e a reação não poderia ser outra – lenços de papel para que te quero!

Lembro que o primeiro filme que causou esse efeito em mim foi “Titanic”. Eu devia ter uns sete anos. Ver uma mãe pondo seus filhos para dormir, enquanto o navio afundava, para que não sofressem quando a água enchesse seus pulmões, um casal de idosos abraçados na cama, esperando serenamente a morte, pessoas e pessoas correndo e gritando de desespero e o sacrifício de Jack para salvar Rose de congelar ou morrer afogada foram suficientes para me extrair algumas lágrimas. Porém, essas algumas lágrimas tornaram-se um verdadeiro riacho lacrimal quando Rose se viu obrigada a desprender o corpo congelado de Jack da tábua na qual estavam e deixá-lo afundar no mar gelado do Atlântico Norte.

Poucos anos depois, em 2001, assisti ao filme “Joana D’Arc de Luc Besson”, com Milla Jovovich. A minha cabeça infantil não conseguiu entender a totalidade contextual do filme. Via uma moça religiosa (aparentemente esquizofrênica) pedir um exército ao rei, partir para guerra, vencer muitas batalhas, ser capturada, julgada e queimada viva em praça pública. Para mim, que jamais havia ouvido falar em Guerra dos Cem Anos, heresia, Tribunal da Inquisição etc., queimar viva uma menina que nem sequer tinha chegado à casa dos 20 e por pura vingança era um ato de extrema crueldade. Eu via com o coração partido a moça agonizar enquanto as chamas ardiam sobre seu corpo, desfigurando-o completamente. O pior de tudo eram os gritos de agonia, que acompanharam meus pesadelos por semanas a fio. Não sei qual dos destinos foi o pior, o de Jack, que morreu congelado, ou o de Joana, que foi reduzida a cinzas (viva). Nessa ocasião, as lágrimas também molharam meu rosto.

Muito tempo se passou até que outra produção me emocionasse a ponto de, dessa vez, apenas marejar meus olhos. Não por tristeza, mas por orgulho. Não sei bem orgulho de que, mas não imagino que outra palavra poderia ser usada para descrever o sentimento que me acometeu ao assistir “Elizabeth – A Era de Ouro”, com Kate Blanchett (uma das minhas atrizes favoritas). Ver a primeira das rainhas da dinastia Tudor a receber o nome Elizabeth governar sozinha uma nação, ser amada e respeitada antes de temida, e o contraste entre sua vida de luxo e a vida política e amorosa foram um deleite para os meus sentidos e curiosidade histórica. Mas o ápice, a cena maior e mais vivaz que fez minha espinha se agitar sentado na poltrona, foi quando a rainha inglesa questionava o embaixador espanhol acerca dos navios castelhanos que circundavam a margem de determinada parte do litoral britânico. Por conta da impaciência da rainha (que soltava frases num espanhol impecável) em vista das negações do embaixador que dizia não saber a respeito dos navios e das pretensões de Filipe II, rei da Espanha, em impor o catolicismo ao único reino que persistia em se manter protestante, terminou este por ofendê-la, o que acabou por fazer o sangue da soberana subir à cabeça e, aos berros, expulsar os espanhóis de seu país.

* * *


Toda essa breve introdução, voltas e voltas, serviram para dar passagem ao tema principal deste texto, o longa estrelado por Jake Gyllenhaal em 2001, Donnie Darko. Eu já tinha escutado sobre esse filme uma ou duas vezes. Comentários positivos, até. Mas à primeira escuta, o nome me soava como um daqueles filmes de rebeldes sem causa da década de 60, estilo que nunca me atraiu muito, apesar de não desgostar completamente. Porém, nesse início de férias, sem ter muito o que fazer, decidi me dedicar a baixar e assistir filmes, e um dos primeiros da lista era justamente este. Queria matar a minha curiosidade, saber o que atraía tanto tantas pessoas, e uma delas em específico, visto que é tão exigente artisticamente (oi, Bruno! ^^).

Logo nas primeiras cenas, eu soube que ia adorar aquele filme. Chamem-me do que quiser, mas gosto de filmes cujos personagens centrais são adolescentes. Não apenas os de comédia, estrelados por Lindsay Lohan ou Hilary Duff, nem aqueles cujos conflitos adolescentes são o ponto fulcral. No caso de Donnie Darko, apesar do personagem principal (ele próprio) ser um adolescente, o filme não gira em torno de decepções amorosas, hormônios a flor da pele, rebeldia etc. Todos esses elementos encontram-se presentes na produção, mas não é em torno deles que gira o enredo.

Donald Darko é um adolescente que não se adapta muito aos padrões da sua conservadora cidade Middlesex. Aliás, toda sua família parece ser mais moderna em relação aos arcaicos moradores daquela cidade. Arcaicos e hipócritas, em contraste com a sinceridade excessiva da família Darko. Além disso, Donnie sofre de esquizofrenia (assim como a personagem histórica francesa), e passa a receber ordens dum coelho gigante que afirma que o mundo acabará em pouco menos de um mês. Ao longo da saga, o protagonista passa a namorar uma garota chamada Gretchen (sem comparações, por favor), a investigar acerca de viagens no tempo, a questionar (com o intuito de desmascarar) um apresentador local dono de um programa de auto-ajuda fajuto e descobre que uma velha com problemas mentais era uma ex-professora da escola em que ele estuda e que escreveu o livro que o ajudaria a entender mais a matéria sobre a qual investigava (ou talvez o efeito fosse reverso).

A atmosfera da trama é densa. Um suspense de qualidade, daqueles que lhe prendem na frente da TV (ou do PC) até o último momento. Richard Kelly, o diretor, foi bem sucedido se o objetivo dele era intrigar a platéia. É difícil saber, no filme, o que é ilusão e o que é real (acredito que os esquizofrênicos não se preocupem muito em distinguir). O personagem conseguia, a um só tempo, parecer perfeitamente normal e preocupantemente perturbado. As sessões hipnóticas com a terapeuta eram especialmente interessantes. No sono controlado, descobriam-se os principais medos do menino que parecia tão indiferente a tudo e a todos. Além do mais, vemos o mais novo dos irmãos Gyllenhaal completamente diferente daquele que observamos na atualidade – cabelos escuros, coluna curvada, músculos de menos e talento de sobra (essa última característica, entretanto, ele conservou). Sem contar que é muito difícil não gostar dum filme no qual contracenam Jake e Drew Barrymore (como uma estilisticamente clássica, porém interiormente moderna professora de literatura).

Não contarei mais nada sobre o filme para não estragar a surpresa e o final surpreendente. Final este que, por sinal, também me rendeu algumas lágrimas – caso contrário, toda aquela introdução não teria servido de nada. É quase impossível não se deixar entristecer por uma cena que, por si só, já é bastante lamentável, e que, ainda por cima, recebe como trilha sonora a versão de Gary Jules da canção “Mad World”, de 1982, da banda Tears for Fears. Eu gostaria de pôr aqui justamente o vídeo da parte mais emocionante do filme, mas como se trata do final, caso eu o fizesse, o texto teria o efeito contrário ao que planejei. Ao invés de incitar a curiosidade, eu a satisfaria. Portanto, me limitarei a colocar apenas o trailer do filme e o videoclipe da canção mais tocante da trilha. Caso queiram assistir o filme, não é difícil encontrá-lo disponível para download em blogs especializados. Sem mais delongas, eis os vídeos:


* * *

Bom Proveito!