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Xenofobia

11 nov

Sou só eu ou mais alguém ficou abismado com os recentes casos de xenofobia contra nordestinos? Se você ainda não ouviu falar sobre Mayara Petruso e sua trupe de preconceituosos, intolerantes e racistas, é apenas uma questão de tempo até que ouça. Essa adjetivação parece um tanto redundante, mas a repetição ajuda a acentuar o caráter negativo com o qual quero encharcar esses indivíduos – ainda que eles mesmos tratem de se banhar com a pior fama possível, a de ignorantes. Não a ignorância inocente da qual fazemos uso para designar aqueles que tiveram pouca instrução, que nunca pisaram num solo escolar, ou a quem falta bons modos; muito menos a ignorância simulada por Sócrates, o maior filósofo de Atenas, com o objetivo de impelir seus interlocutores a darem a luz suas próprias idéias. Refiro-me à ignorância nociva e imperdoável que se manifesta em generalizações e idéias infundadas, em alienação materializada, preconceitos, discriminação, violência e, por que não, morte.

O que mais me irrita é a inércia alheia. Será que as pessoas acham que crime é apenas matar, roubar e estuprar? É o que parece, pois só nesses casos se vê uma agitação moral nos espectadores a ponto de tomarem providências ou, na menor das hipóteses, exporem suas opiniões. A meu ver, crimes contra a honra, como nos casos de preconceito em geral, calúnia, difamação e injúria, são tão danosos a quem os sofre quanto um ferimento físico e às vezes até muito mais grave que uma lesão corporal, que no mais das vezes cicatriza e desaparece. Ser alvo de ofensas, porém, é estar fadado a guardar uma mácula na memória e na alma (seja lá qual for o seu entendimento acerca deste substantivo) para sempre. Costuma dizer minha mãe que palavras doem mais que pancadas.

E, como se já não bastasse o pouco caso que fazem da situação, aqueles que optam pela inércia ainda nos aconselham a ignorar o fato. Da minha parte, me recuso a ignorar e sou dos que crêem no antigo ditado segundo o qual “quem cala, consente”. Dar as costas simplesmente não faz parte da minha natureza, muito menos nesse caso específico. Os motivos? Primeiro, porque eu sou nordestino e me senti particularmente ofendido; segundo, porque se há algo que sou incapaz de tolerar é preconceito; e terceiro, porque eu optei por cursar Direito não pura e simplesmente em busca de status e dinheiro ou porque meus pais quiseram. Se fosse para vendar os olhos numa situação como estas, eu me pergunto que tipo de profissional eu seria. Provavelmente muito parecido com a garota Petruso, que (infelizmente) vai se tornar uma advogada algum dia.

É válido lembrar aos indiferentes que a única coisa que distingue a estudante paulista do ex-ditador alemão Adolf Hitler é o fato de que ela não pode, como bem queria, afogar todos os nordestinos do mesmo modo que o líder nazista exterminou os judeus, negros e homossexuais. Pois no que diz respeito à postura, ambos são muito parecidos. Eles pregam o ódio, a intolerância e a superioridade de um grupo sobre outro. Diante de uma situação como esta, passo a refletir sobre a pergunta feita por Ana Cláudia Gusmão, excelentíssima professora de História do Direito da Universidade Católica do Salvador (UCSal), quanto a possibilidade de em pleno século XXI se desenvolver um sistema ditatorial tão forte quanto os que vigoraram no século anterior.

Verdade seja dita, Mayara não foi a única a se manifestar preconceituosamente contra os habitantes do Norte-Nordeste. Mas foi ela a primeira a publicar um comentário infeliz – “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado”. – que acabou gerando uma onda de outras manifestações, logo após a notícia da vitória da candidata à presidência Dilma Rousseff sobre o candidato tucano José Serra. Algumas até piores, pra ser sincero, mas a maioria de autoria de adolescentes sem opinião própria que acreditam que postura de rebelde sem causa é “legal” e que fazem qualquer coisa para aparecer e para se sentir pertencente a um grupo qualquer (mais ou menos o que Felipe Neto consideraria um “troll”). Os que já passaram dos 20 e pensam da mesma forma, nada mais são que pós-adolescentes frustrados.

Eu não vou falar do quão irracional chega a ser a crença de que uma única região definiu o rumo das eleições; e os números estão aí para mostrar que mesmo que o Nordeste, hipoteticamente, não participasse do processo eleitoral, a candidata do PT ainda seria eleita com mais de 1 milhão de votos de vantagem. Não é meu objetivo também falar da tremenda falta de noções históricas desses indivíduos, que ignoram o fato de que o Brasil nasceu no Nordeste e que por muito tempo daqui extraía suas principais riquezas. Não pretendo também fazer uma análise sócio-antropológica da elite paulista e grupo ao qual pertence Mayara Petruso e Cia, muito menos tenho a intenção de avaliar seu histórico familiar com o intuito de defender a tese de que são comuns, entre eles, manifestações desse tipo. E se fosse do meu interesse discorrer dos motivos pelos quais o Nordeste é tão estigmatizado e dele é vendida essa imagem de fome e miséria, eu certamente citaria a brilhante matéria do jornalista Raphael Douglas, que soube desenvolver maestricamente uma crítica contra os padrões negativos que a mídia e a política tratam de propagar.

Meu objetivo é fazer o papel da mosca chata que tenta assiduamente pousar na sopa da população, de modo a causar o mínimo de movimento por parte desta. “O que podemos fazer?”, perguntam. Primeiro de tudo, dar atenção aos acontecimentos fatídicos e não banalizar esse tipo de atitude, pois a partir do momento em que se dá ao crime caráter tão ordinário, seu combate deixa de ser prioridade. Ainda está fresco na memória de quem acompanha telejornais o homicídio do tecelão Ailton Fernandes dos Santos, de 45 anos, que foi baleado na frente da esposa e dos 5 filhos (um dos quais também foi atingido por uma bala no braço), por motivo fútil. O advogado do infrator, em entrevista, após tentar justificar a atitude de seu cliente, termina por dizer que “esse tipo de coisa acontece”, afirmação que dispensa comentários.

Em segundo lugar, refletir um pouco, parar pra pensar e evitar precipitações de modo a não incorrer no erro de se igualar àqueles a quem se dirige a crítica. Quem apela para comentários odiosos, quem incita a violência ou parte para a agressão converte-se de vítima em infrator, perde a razão e a legitimidade do discurso, fica impossibilitado de exercer juízo de valor e todos os créditos que por ventura venha a ter tornam-se desmerecidos. O ideal é que façamos uso dos meios legais, por mais lentos que possam ser. E a despeito do que muitos ainda pensam, o Direito da Informática tem dado passos significativos. Algumas capitais brasileiras já possuem delegacias especializadas em crimes virtuais e contamos, ainda, com o trabalho de ONGs que tratam de recolher denúncias e encaminhar para os órgãos responsáveis.

Meios de agir, sem dúvida, não faltam. Falta, talvez, interesse e vontade. Duvido que na nossa rotina diária de trivialidades não haja tempo ou não sobre energia para exercer um pouco de cidadania. Graças a cidadãos que encararam possibilidades como obrigações e denunciaram ao SaferNet os inúmeros casos de racismo e xenofobia na rede social Twitter, o Ministério Público de São Paulo poderá apurar os casos de todos os 1.037 xenófobos listados por aquela ONG e enviados à entidade. Às vezes tudo que precisamos fazer para por a máquina em funcionamento é sair da zona de conforto.

Quanto a Mayara Petruso, a OAB-PE tratou de impetrar uma ação contra a paulista, que responderá por racismo e incitação ao crime. A menina, logo após ter percebido a tamanha repercussão de seus atos impensados, logo excluiu todas as contas virtuais (twitter, orkut, facebook) e deixou de freqüentar a faculdade. O escritório onde Mayara estagiava não tardou a deixar claro que ela não mais pertence ao corpo daquela instituição.

Apesar de não ter sido veiculado por nenhuma emissora de TV, o caso foi amplamente divulgado na rede. A internet é como uma pista de mão dupla, pois ao mesmo tempo em que causa a ilusão do anonimato, submete-nos à veloz e livre troca de informações que circulam por todo o mundo através dos cabos de fibra óptica. E aí está a grande oportunidade. Há quem se deixe enganar pela miragem e pela crença do incognoscível, alienando-se e praticando todos os tipos de atos detestáveis e repreensíveis sob a suposta proteção de milhões e milhões de bits de barreira, mas também há, por outro lado, quem esteja disposto a identificá-los, contestá-los, denunciá-los e, por fim, penalizá-los. Neste ponto eu faço minhas as palavras de Thiago Sacramento, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), segundo quem “o mínimo que podemos fazer é expô-los”; não simplesmente com o intuito de constrangê-los e submetê-los a uma simbólica humilhação pública, como fazem os programas sensacionalistas e antiéticos que infestam as mesmas emissoras que se recusam a exibir o caso Mayara, mas publicizar os fatos de modo que a maior parte da população saiba e exercite seu direito e, atrevo-me a dizer, dever de indignar-se. Assim, a pressão que o povo exerceria sobre o poder estatal contribuiria para a diminuição quantitativa dos casos de impunidade e, talvez, servisse como forma de coação psicológica para inibir a prática do crime.  Identifico aí a tênue linha que separa a inércia e a indiferença das inúmeras possibilidades de ação. Agir é o primeiro passo. Assim, pouco a pouco, todos perceberão que a internet não é mais “terra de ninguém”.

Abaixo, um vídeo triste, mas que, como diz Renato Rovai, editor da Revista Fórum, merece ser visto.

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