It’s not about sex but about sexuality…

3 ago

Hoje resolvi fazer algo um pouco diferente. Pela primeira vez, vou me desligar um pouco do lado musical para fazer a minha primeira análise cinematográfica (se é que se pode chamar o que eu escrevo de análise). Apesar de gostar muito de cinema, nunca me senti confortável o suficiente para escrever sobre filmes e não saberia dizer por quê. Nem mesmo no meu blog anterior (Sceptical Poet) me atrevi a escrever sobre esse tema. Porém, recentemente, assisti uma produção que me impressionou bastante (pelos mais diversos motivos) e sobre a qual venho sentindo vontade de escrever desde então. Mas a insegurança me fez adiar a tentativa até o dia presente.

O filme do qual trato chama-se “Shortbus”, dirigido e escrito pelo norte-americano John Cameron Mitchell. Apesar de datar de 2006, é provável que pouquíssimos de vocês tenham o assistido, mesmo hoje em meados de 2010. Eu ousaria dizer que seu tema e o despudor que o caracteriza não o permitiram tornar-se tão popular, mas na minha humilde e leiga opinião, essa produção merecia ter faturado o Oscar, seja pelo enredo que mistura drama e comédia nas doses perfeitas, pelo realismo e por ser uma iniciativa ousada e original para a qual as mentes dos americanos protestantes não estavam preparadas.

Problemas afetivo-sexuais constituem-se no principal tema do filme. Nele, as histórias dos vários personagens se cruzam a todo tempo, mesmo em New York (the Big Apple), e é através dessa teia de relações que acontecem os episódios mais incomuns do longa. Shortbus, um salão descrito como sócio-artístico-sexual, é o local de encontro dos personagens, a partir do qual se desenrolam os acontecimentos mais importantes, as experiências mais relevantes e as auto-descobertas de indivíduos que sofrem dos mais diversos problemas de ordem psicológica (depressão, por exemplo) – como o ex-prostituto suicida James, que se joga numa piscina, com um saco plástico amarrado à cabeça, como a dominatrix Severin, que sofria de sérios problemas com a auto-estima, ou ainda como a terapeuta sexual Sofia, que jamais teve um orgasmo em toda a sua vida.

Shortbus foi um verdadeiro dedo na ferida dos conservadores, devido ao despudor e às cenas reais de sexo. Unido a isso, o ménage a trois entre os personagens gays Jamie, James e Ceth, fez com que o filme fosse taxado como pornográfico pela crítica. Mas é clara a intenção do diretor de desprover do sexo todo o cunho erótico que o caracteriza nas produções pornográficas, com o intuito de “remover a nuvem de excitação para revelar emoções e idéias que podem ter sido ocultados por ela”. O filme faz parte de uma tendência que vem se desenvolvendo nos últimos anos, de alguns diretores mesclarem cenas de sexo real em enredos de filmes cujo foco principal, entretanto, não é o sexo em si, mas na verdade qualquer tema presente em outros filmes, drama, comédia, ação, relações humanas, enfim.

Definitivamente você não se sentiria confortável assistindo esse filme com o seu pai, sua mãe, tia, tio, avó, avô etc. E provavelmente não permitiria que seu filho menor de idade o assistisse (apesar da minha forte convicção de que se ele for adolescente, já assistiu coisas muito mais explícitas). Mas apesar dos tabus e da capa proibitiva e imoral com o qual o sexo foi revestido pela religião e pelos dogmas ao longo dos séculos, Shortbus é uma história emocionante, sensível, original, tocante, dotada de atuações perfeitas e de diálogos bem elaborados. Não se surpreenda se por acaso se identificar com um dos personagens. Quem não tem problemas afetivo-sexuais que atire a primeira pedra.*

*   *   *.

“Sex, like music, is a universal language. We want to use it to introduce character, evoke emotion, propel the plot”.

John Cameron Mitchell

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: